Archive for Junho 8th, 2009
Segredo de grávida
Dá para contar nos meus dedos quantas pessoas sabem da minha gravidez, que já já vai completar 16 semanas (4 meses). Tá bom..tá bom…vamos incluir em “meus dedos” os dedinhos do bebê também, que são meus por direito, já que ele mora sem pagar aluguel. Usocapião. Mas antes do primeiro ultrassom, apenas meu marido e eu sabíamos. Bom, na verdade minha mãe também sabia, mas meu marido não sabia que minha mãe sabia por que se não ele iria exigir que a gente contasse para a mãe dele também. Para não perder tempo tentando explicar que não dá para esconder um segredo desses de uma mãe como a minha – que tem GPS de última geração acoplado a radares ultrassônicos que nem a NASA tem ainda — preferi contar uma mentirinha saudável para o maridão, salvar o casamento e escapar da mágoa eterna da minha mãe. Ok. Confesso que no fundo queria mesmo é me livrar por mais uns dias dos comentários assustadores da sogra.
Só depois do primeiro ultrassom contamos para os parentes mais chegados: irmãos, cunhados, avós, SOGRA, pais (contamos de novo para a minha mãe, que merecia um Oscar ao fingir surpresa e alegria com a inesperada notícia! Hollywood não sabe o talento que tá perdendo!). A partir daí começamos a precisar dos dedinhos do bebê que -Graças a Deus – já estavam bem formadinhos, como revelou a segunda ultrassonografia. Por que um segredo deixa de ser segredo quando a gente conta pra UMA pessoa. Imagina se a gente conta pra uma dúzia de linguarudos.
Mesmo assim, para minha surpresa, os amigos ainda não sabem de nada. Nem no trabalho do meu marido, nem no meu (trabalho em casa e converso com a chefia por telefone e internet, o que facilita as coisas). Agora vai ficar meio difícil esconder, por que a barriga aumentou de uma hora pra outra. Sem brincadeira. Acordei barriguda hoje e percebi que não dá mais para dizer que é culpa do chope do happy hour de sexta-feira.
Por que tanto segredo?
Quando contar e para quem contar é uma decisão que cabe ao casal. Mas essa regra depende muito do casal. Aqui, como sempre, decidi tudo sozinha e em seguida comuniquei a regra. Ainda amecei: se você falar pra alguém, eu nego. Tem gente que acha isso loucura, tem amigo que vai fica magoado para todo o sempre (espero que o todo sempre acabe antes do dia de me visitar e trazer fraldas de presente), mas não tô nem aí. A barriga é minha.
Já pensava em agir assim, quando ficasse grávida. Mas um acontecimento reforçou minha decisão. Senta que lá vem história: era uma vez, uma mocinha que trabalhava comigo e era louca pra casar e engravidar. Um dia ela desencalhou e uma semana depois chegou toda saltitante no escritório, anunciando aos quatro ventos “Estou grááááávida”. Foi cercada pela mulherada em idade fértil (a maioria encalhada também), afundada em abraços, beijinhos, parabéns, parabéns. Quando finalmente o tufão de congratulações acabou, perguntei: de quantas semanas você está? A moça respondeu: Ah, duas semanas, no máximo. Acabei de fazer o teste da farmácia. Deixa eu ligar pra marcar horário com a médica.
Fiquei pasma. Ela nem tinha certeza se estava grávida, só tinha feito o teste da farmácia! Mas disfarcei, como manda a regra do bom convívio social.
Fez exames, confirmou a gestação, tudo lindo, maravilhoso. Duas semanas depois ela não apareceu pra trabalhar. Sentava na cadeira ao meu lado, senti a falta, liguei na casa dela. Chorava tanto, tadinha:
- Perdi o bebê.
Lamentei, consolei, desejei mil coisas boas. Fiquei muito triste. Sabia o quanto ela sonhava com aquele bebê. A vida não era justa. Não comentei com ninguém sobre aquilo. Dias depois, ainda meio abatida, ela voltou para o trabalho. Sentou ao meu lado aos prantos. Do portão de entrada até chegar à mesa dela, perdeu as contas de quantas pessoas sorridentes ela decepcionou. Vinha todo mundo ávido, tacava a mão na barriga dela e disparava frases feitas: E o bebê? Tá comendo por dois? Como tá a gravidinha mais linda do escritório?
A cada dois passos ela tinha de parar, ouvir o gracejo e responder: perdi o bebê. Ela tinha voltado para o escritório na esperança de enfiar a cabeça no trabalho e por alguns instantes parar de pensar no que tinha acontecido. Ela queria esquecer. Mas todos faziam questão de lembrá-la de que a gravidez não tinha dado certo. Ninguém tinha culpa, claro. As pessoas não estavam sendo insensíves. Elas simplesmente não sabiam. Mas não acredito que teria sido muito diferente se soubessem. As pessoas iriam falar sobre o assunto com ela, de qualquer jeito, tentando consolar alguém que estava inconsolável.
Enfim. Depois disso, decidi que se ficasse grávida, só contaria para todo mundo depois de algum tempo. Se algo desse errado, haveria menos gente para me lançar olhares de pena. Também seria um jeito de fugir dos conselhos por alguns meses, já que todo brasileiro é obstetra e pediatra.
Depois que um teste de farmácia confirmou minha gravidez, fui à uma consulta com minha ginecologista. Ela pediu vários exames e aconselhou: “Deixe para contar sobre a gravidez para os outros depois do terceiro mês, se você conseguir guardar segredo. O primeiro trimestre é muito frágil e grávida precisa de tranquilidade. Acredite: quanto menos gente souber, mais tranquilidade você terá.” Saí até meio assustada de lá. Jisus Craisti, será que essa doutora lê pensamentos? Vai ver faz ultrassom da cabeça da gente. Adorei ter minha decisão endossada por uma especialista do ramo. Fechei a boca (pra falar da gravidez, cla-ro, por que pra comer…jisus..não ficou fechada nenhum segundo desde o início da gestação).
Há 15 dias, quando levei um baita susto e pensei que tinha perdido o bebê, fiquei grata por não ter falado da gravidez para muita gente. Estava muito frágil e abalada. Não aguentaria o telefone tocando e uma romaria de amigos curiosos lá na casa dos meus pais. Sem falar nos comentários totalmente sem propósito. Tem gente que fala cada uma nessas horas! Só a família sabia e mesmo assim tive que escutar coisas do tipo:
- Se perder esse, você faz outro. ( Ah é, só pegar outro na prateleira, né?)
- Fica calma. A amiga da prima da minha vizinha teve sangramentos a gestação inteira, passou os nove meses deitada, só levantava pra ir ao banheiro, mas teve um bebê lindo. Você vai conseguir! (isso que é consolo, né?)
- Isso aí aconteceu por que você levou aquele susto com a panela de pressão. (ai Jisus, por que eu fui contar isso?)
- Ah, normal, isso aí faz parte (isso veio de uma cunhada, suuuuper preocupada com meu bem estar, que só falou comigo 15 dias depois do ocorrido, pelo telefone)
- Viu? Você não come carne vermelha, é nisso que dá! (nem foi um pecuarista que disse isso..)
Aconteceu assim:
- Minha colega de trabalho ficou grávida menos de um ano depois. Teve um menino. Ele é lindo e danado. Ela está quase surtando com as coisas que ele apronta. Dessa vez ela não contou pra ninguém.Só depois do terceiro trimestre.
- Dá vontade de gritar sobre a gravidez aos quatro ventos. De contar pra todo mundo. Na fila do supermercado, no ponto de ônibus, na rua. Pra matar essa vontade, criei este blog, entrei em vários fóruns sobre gravidez, criei uma conta no Twitter. Fiz vários amigos e amigas “grávidos” que nem me conhecem, mas torcem por mim. Uma delícia!
- Não estou dizendo pra ninguém fazer o que eu fiz. Cada um sabe a dor e a delícia de ser a grávida que é. Tem gente que conta sobre a gestação até antes de engravidar. Hoje eu vou dar pro meu marido pra ver se a gente engravida, tô no dia fértil. E no fim dá tudo certo (exceto algumas vezes, quando esse tipo de comunicado pode soar como um convite pra um ménage a trois)
- Minha sogra fez (e faz) diversos comentários esquisitos sobre gravidez. Vou falar sobre eles aqui no blog qualquer hora dessas. Ainda bem que passei umas oito semanas da gestação sem precisar ouvi-los. Mas a verdade é que continuo não ouvindo muito o que ela diz, pois sempre ligo o filtro.
24 comments 08/06/2009