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A piscina de dentro e a piscina de fora (da série Sem Medo de Perguntar)
Até uma grávida com a cabeça totalmente desparafusada consegue responder esta:
- Onde é, onde é? Que a baleia fica mais feliz?
- Na água!
Inchada, engordada, pés deformados, encalorada e abandonada (ai, drama!) como estou, a piscina virou meu habitat natural. De vez em quando encalho lá dentro e não consigo subir a escadinha para sair. Daí chamo o guindaste marido pra me içar ou empurrar. Ou as duas coisas. Aqui faz muito calor e o excesso de tecido adiposo (também conhecido como GORDURA) me deixa mais quente ainda. É como se tivessem ligado o forno do mundo e eu estivesse sozinha lá dentro, sendo tostada.
Só na piscina a sensações de inchaço, peso e calor desaparecem. Dentro d´água consigo fazer movimentos que são impossíveis do lado de fora (caminhar sem parecer uma marreca, por exemplo), então me sinto muito bem, como se estivesse leve novamente. Me sinto uma
verdadeira sereia Ariel (se bem que tô mais pra peixe-boi, mesmo, honestamente). Às vezes não faço nada, só me enrosco na bóia e fico deitada de barriga pra cima olhando o céu e conversando com o bebê. “Nada aí dentro, que eu nado aqui fora, filhote. Faz nada aí, que eu faço nada aqui. Filho de peixe, peixinho é. Só não dá salto mortal triplo de novo pra não acertar a costela da mamãe outra vez.”
A água diminui a ansiedade, o inchaço e ajuda a passar o tempo. Se está sol, aproveito para bronzear os mamilos para ajudar na amamentação, conforme ensinou minha médica. O lado ruim é que abre ainda mais o apetite. O lado bom é que a piscina é ótima desculpa pra comer mais.
Interessante que quando resolvemos engravidar, meu marido e eu decidimos primeiro que seria legal trocar o apertamento por uma casa grande, com quintal e piscina. Mas não estávamos pensando na gente. Ok, mentira, não somos tãooooo paternais assim, pensamos na gente também, é claro. Mas nosso objetivo principal foi proporcionar ao nosso filho uma infância tão boa quanto à nossa: com espaço para correr, brincar, andar de bicicleta. Tá certo que a piscina da nossa infância era o tanque de lavar roupas. Em casa tinha um daqueles redondos, enormes, do tipo que não fabricam mais. Minha mãe enchia até o topo e meus irmãos e eu fazíamos revezamento pra brincar dentro da água. Havia também um dia ou outro em que a mangueira d´água era liberada por alguns minutos e a gente fazia uma festa no quintal. Depois finalmente compraram uma piscininha de plástico, que era mais apertada do que quitinete japonesa, mas na época a gente aproveitava como se fosse uma piscina olímpica
O que eu não imaginava ao mudar para cá é que meu filho passaria tanto tempo dentro da piscina antes mesmo de nascer. Só assim para suportar os últimos dias da gravidez. Sem exagero. Quando entro lá, não quero mais sair. Por isso fiquei aflita quando a Dri Viaro chamou a atenção para uma questão: e se a bolsa estourar enquanto estou dentro da piscina? Não vou perceber que o líquido escorreu e colocarei a vida do meu filho em risco? Para piorar, essa dúvida surgiu num dia em que eu havia sentido uma pontada na virilha (parecia cólica menstrual) pouco antes de entrar na água. E o bebê ficou bem menos agitado depois que saí da piscina. Aí fiquei encafifada: será que a bolsa rompeu lá dentro da piscina? Será que aquela pontada era a bolsa?
Comentei sobre isso com meu marido e ele decretou: não entra mais na piscina. Claro, concordei imediatamente. Melhor derreter a tarde toda no sofá do que não ter paz dentro da piscina. Mas então comecei a raciocinar (é, de vez em quando ainda pega no tranco) e a me perguntar: se a piscina é perigosa, por que a médica não proibiu a hidroginástica? Afinal, a bolsa pode romper na hora da hidro também.
A melhor coisa a fazer nessas horas é ligar para a médica, mesmo correndo o risco de pagar mais um mico grávido. Quando ela atendeu, já fui me defendendo explicando:
- Olha, doutora, não sei se é dúvida de marinheira de primeira viagem, é que eu senti uma pontada e aí me falaram isso, de que a bolsa pode romper e eu não vou sentir…
Depois de ouvir o meu relato, ela respondeu calma e didaticamente (como sempre) que não havia perigo. Para o meu alívio (e dos meus deformados pés grávidos) a piscina está liberada (desde que haja sempre um guindaste por perto). Ela disse que mesmo que a bolsa rompa lá dentro, quando eu sair da piscina vou continuar sentindo o líquido escorrer, morninho, diferente de tudo. E que as pontadas agora nesta fase final são normais. Acrescentou que não vai haver dor. “A bolsa vai estourar e pronto”. Então aquela dor não foi a bolsa. Hmmmm….
Pedi desculpa por ter ligado pra perguntar algo assim, mas já que ela estava ali tãoooo disponível e didática, aproveitei para fazer outra pergunta-de-primeira-viagem:
– Depois que a bolsa rompe, o bebê continua mexendo ou fica quietinho? Ele está um pouco mais quietinho desde ontem.
- O bebê continua mexendo normalmente. Se ele ficar muito quieto, coma alguma coisa doce, deite de barriga pra cima e espere. Se não houver movimento nenhum na próxima meia hora, me ligue ou vá direto para a emergência fazer um exame.
Amo essa médica! Libera os mergulhos e ainda manda eu comer doce. É o mundo perfeito desta grávida aqui: leve e solta dentro da piscina enquanto saboreio uma bomba de chocolate. Ué, só adaptei as ordens médicas!
23 comments 19/11/2009
Tão perto…tão longe
A expressão “estou esperando um filho” faz muito mais sentido no último mês de gravidez. Agora é mesmo esperar. Só esperar. Parece que os dias não passam. E ao mesmo tempo tenho a sensação de que tudo está veloz demais e acontecerá uma revolução na minha vida de uma hora para outra, totalmente fora do meu controle: pode ser a qualquer momento. São dias de expectativa, ansiedade, sustos. Para uma grávida de primeira viagem todo dia é o dia. Sei que ainda é cedo — pela conta da médica faltam 30 dias pelo menos. Mas então a cunhada fala que os três filhos dela nasceram todos 20 dias antes do previsto. “Os médicos sempre erram na conta no primeiro filho”. Tem também a vizinha simpática que coloca a mão na minha barriga, olha para o céu e diz com voz de profecia: “da próxima lua não passa”. E aquela dorzinha diferente na virilha…será que isso é uma contração?
Imaginação fértil não ajuda a grávida nessas horas. Já criei roteiros dignos de Hollywood para o momento do meu parto. A bolsa rompeu, não rompeu. A dor foi grande, não teve dor. Eu estava dormindo, estava acordada. Tinha acabado de comer uma tigela imensa de sucrilhos com leite e vomitei tudo a caminho do hospital. O trabalho de parto durou doze horas e pensei que ía morrer de tanta dor. Não senti quase nenhuma dor e tudo passou rapidinho. Foi no meio da madrugada e não consegui acordar meu motorista marido o suficiente para dirigir, chamei um táxi, nasceu dentro do táxi e virou manchete do jornal. Eu estava sozinha, dentro da piscina, não consegui subir a escadinha, marido chamou um guindaste e eu fui içada como uma baleia encalhada. Eu estava no Messenger com minha melhor amiga e escrevi “Amiga, acho que fiz xixi na calça”, então ela respondeu algo engraçado e eu quase pari de tanto rir. Enfim, o ócio obrigatório dos últimos dias tem me deixado com muito tempo livre para imaginar como será. Mas tenho certeza de que será de um jeito que nem imagino. O bonito deste momento é a surpresa. E ninguém sabe os detalhes justamente para não ter perigo de estragar a festa.
Claro que tem quem tenta. Daí vem a história da “sua barriga está tão baixa, é a qualquer momento, hein?” Ouvi isso tantas vezes, de tantas mulheres diferentes, durante uma semana inteira, que decidi procurar minha médica. Ué, vai que ela é ruim de matemática que nem eu e ainda precisa fazer contas nos dedos? Daí somou tudo errado, escorregou um zero onde não tinha e eu já tô em trabalho de parto e não sei. Como é que eu vou saber que é a hora? Passo o tempo todo à procura de um sinal. Sinto uma dor aguda no canal vaginal. Na primeira vez pensei: “será que começou?” Mas não era nada disso. “É uma dor normal, é a pelve se alargando, é o corpo se preparando para a saída do bebê”. Olho a calcinha em busca de vestígios do famoso “tampão”. Imagino se a bolsa vai romper de uma só vez enquanto estou deitada no meu colchão novinho ou se vai acontecer no meio do corredor do supermercado, de uma forma bem constrangedora. Então descubro que também pode não acontecer: minha mãe não viu tampão nenhum nas gravidezes dela. Nem teve dor, dilatação, bolsa rompida, nada.
Além disso, mesmo que os cálculos da médica estejam certos, a verdade é que gravidez não tem data para nada: nem para começar, nem para terminar. Não é ciência exata. A geração de uma nova vida é algo que acontece no prazo que cada ser precisa para estar pronto. E se esse dia for hoje? O que é essa pontada nas costas? Essa dor na virilha é trabalho de parto ou estou com gases?
A médica sorri, como sempre e explica que “barriga baixa” é normal. Diz ainda que é muita sorte eu ter esse formato de útero, essa disposição do ventre. Graças a isso, não terei falta de ar e provavelmente não sofrerei de azia. Verdade. Geralmente no último mês as gestantes reclamam muito de falta de ar. Deito de barrigão para cima, sinto o mini-eu chutando minhas costelas, mas ainda assim respiro normalmente. Também não tive azia.
Saio do consultório com um calendário em mãos, montado pela obstetra. Nele tem um dia marcado para a tal DPP (Data Provável do Parto). Ela explica que pode acontecer do bebê estar pronto 10 ou 15 dias antes e já mandar algum sinal. Ou pode vir 10 ou 15 dias depois. É que nem previsão do tempo. Eles não sabem se vai chover ou não então escrevem algo genérico do tipo: “sujeito a pancadas de chuva isoaldas”.
Cada gravidez é de um jeito e o grand finale é sempre um espetáculo único. Observo com certo alívio que a médica usa uma calculadora para fazer as contas. “Relaxe e aproveite, vai sentir falta da barriga”.
Aliás, essa é outra frase que tenho ouvido muito agora na “reta final’. Todo mundo me avisa que sentirei falta da barriga. Terei o bebê no colo, ficarei radiante com isso, mas vou chorar de vontade de senti-lo dançando dentro de mim de novo. Acredito, pois já tenho saudade dela agora. Passo horas deitada conversando com o bebê, fazendo carinho nos pequenos “montinhos” que aparecem cada hora num lugar da barriga, quando o mini-eu se mexe. E como ele se movimenta! É muito ativo e participativo. Reage à música, às vozes, às minhas mudanças de humor. No banho cantamos juntos e também enquanto estamos no carro.
Os pés e pernas muito inchados me obrigam a ficar deitada a maior parte do tempo. Então aproveito para namorar minha barriga e observá-la atentamente. Digo o tempo todo ao bebê o quanto ele é amado, querido, planejado, esperado, idolatrado-salve-salve. Explico que estamos todos muito ansiosos, mas que ele deve ignorar quando o papai diz: “Vai, bebê, sai logo daí, tô louco pra ver você”. Aviso que ele só deve sair quando estiver prontinho. O bebê dá dois soquinhos como quem responde: “Tudo bem, mamãe, já saquei que papai é meio impaciente e precisamos aproveitar esta oportunidade para ensiná-lo a aprender a esperar o tempo certo das coisas”.
Às vezes o bebê fica impaciente também, parece procurar a saída. Se vira de um lado para o outro dentro de mim, empurra minha barriga com tanta força que parece que a pele vai rasgar, como naquele filme do alien. Então aviso: “filho, não é pelo umbigo, eu garanto. Não adianta você erguer o umbigo da mamãe desse jeito, como se fosse a tampa de uma caixa.Calma. Continue procurando, um dia você acha a saída. Dica de mãe, amor: o buraco é mais embaixo”.
A ansiedade só piora as coisas na reta final da gravidez. Tem sido a fase mais difícil para mim. Não encontro posição para dormir, sinto muito calor, tenho dificuldade para levantar da cadeira, do sofá, da cama. Me sinto cada vez menos grávida e cada vez mais gorda. Meus pés e minh
as pernas já amanhecem inchados. Uso meias e tenho sessões de drenagem linfática, mas esses recursos só atenuam o problema. Há duas semanas eles estão assim: constantemente inchados, não voltam ao “normal” de jeito nenhum. Depois de meia hora em pé ou sentada, os pés começam a doer e fica difícil andar. O sapato número 36 não serve mais. Agora uso chinelos número 39, emprestados de uma amiga. Os dias são quentes, mas para mim parecem ainda mais. O canal vaginal dói. Algumas vezes estou deitada de um lado e preciso virar o corpo para o outro lado para levantar, mas não consigo sem ajuda, pois a barriga pesa muito. O bebê já tem quase 3 kg!
Engordei quase 20 kg já. Esse parece ser o motivo principal de quase todo o desconforto. O excesso de peso prejudicou a circulação, o intestino, provocou hemorroidas, inchaço nas pernas e nos pés, dificuldade para me locomover. Tenho a sensação de que para o bebê também está cada dia mais difícil. Ele tem menos espaço para se movimentar e “reclama” quando faço alguns movimentos ou fico tempo demais em pé.
Ao mesmo tempo, é tanta alegria, expectativa e felicidade pela chegada do bebê, que todo esse desconforto fica em segundo plano a maior parte do tempo. Olho aflita para meus pés deformados e penso: “é um preço pequeno a pagar para trazer ao mundo meu amor maior”. A família ajuda. Juntos fazemos piadas sobre minhas dificuldades. Se estou no sofá e quero levantar, alguém já grita: “a gravidinha encalhou de novo, alguém socorre lá”. Daí tenho um ataque de riso e a barriga entra num frenesi doido, subindo e descendo, chacoalhando o bebê, que ri junto comigo. É delicioso.
Meu irmão, pai de três, definiu essas agruras dos últimos dias de gravidez de forma nada poética, mas muito sensata. “A natureza é sábia”, ele disse. “Tudo fica difícil, dolorido e insuportável no final justamente para que a mãe queira o parto. Se fosse gostoso, agradável e confortável, ninguém teria pressa em enfrentar as dores do parto. A mãe diria simplesmente: ‘Ah, tá tão bom assim, deixa o bebê mais um pouquinho aqui dentro, não tem problema’. Então a natureza deixou tudo difícil para a mãe e também para o bebê. Assim os dois trabalham juntos para acabar logo com isso.”
35 comments 16/11/2009
Por todos os buracos
Chegaram milhares dezenas de emails, bilhetes, tuitadas, torpedos, scraps e sinais de fumaça com a mesma pergunta que não quer calar: qual é o nome do bendito fitoterápico que desentupiu meu fiofó (não sabe do que estou falando? Leia aqui). Aviso aos navegantes da web: sou contra a auto-medicação, principalmente na gravidez. Mesmo um composto natural pode ser perigoso. Cada caso é um caso e o que faz bem para um pode fazer mal para o outro. Por isso: não tomem remédio (nem mesmo fitoterápico) sem o conhecimento do obstetra! O nome do medicamento indicado pela minha médica é PlantaBem: uma caixa com 30 envelopes custa cerca de R$ 50 aqui. Tomo o conteúdo de um envelope após cada uma das três principais refeições do dia .
Esse é só um dos compromissos medicamentosos da minha rotina. Sempre tive resistência a tomar remédios e não imaginava que justamente na gravidez me tornaria uma espécie de hipocondríaca, ainda que contra minha vontade. Ao longo da gravidez a conta da farmácia só fez aumentar e tomar todos os buracos do meu corpo grávido.
Pelo buraco da boca:
Primeiro veio o ácido fólico. Receitado pela médica no dia em que anunciei que pretendia engravidar. Um comprimidinho uma vez por dia. Ela disse que suspenderia o uso após o primeiro trimestre de gravidez, mas após o sangramento, decidiu mantê-lo até o final da gestação.
Depois veio a cápsula de polivitamínico. É uma pílula grande. Uma vez por dia também.
Pelo buraco da área de lazer:
Depois do sangramento, a médica receitou uma cápsula de hormônio (progesterona) todas as noites, antes de dormir. Não tem aplicador, nem nada. Pego o comprimidinho gelatinoso com a mão, enfio na vagina e empurro com o dedo, o mais fundo possível. Não se iluda, a coisa não é divertida como pode parecer. Depois o corpo absorve o que interessa e passa o resto do dia seguinte jogando fora o que não foi aproveitado (uma gosminha branca, meio leitosa, que parece corrimento, mas na verdade é o revestimento da cápsula gelatinosa). Ou seja: ao contrário do que eu pensava, a gravidez não serviu para eu me livrar dos absorventes.
Pelo buraco do fiofó:
Uma pomada que alivia os problemas e dores causados pelas hemorroidas. A caixa do medicamento vem com bisnaguinhas e aplicadores individuais. O paciente deve introduzir o aplicador no c* e apertar a bisnaguinha até que toda a pomada tenha entrado no fiofó. Agora imagina fazer isso com uma só mão, se contorcendo de um jeito que não machuque a barrigona e tentando evitar que a pomada meleque tudo à sua volta. Diversão garantida.
Efeito Dominó
De acordo com a bula e a médica, a vitamina e o ácido fólico contribuíram para a prisão de ventre, o que ocasionou hemorroidas e, consequentemente, a necessidade de mais medicamentos (o fitoterápico regulador de intestino e a pomadinha no fiofó).
Se uma coisa leva a outra, nem quero imaginar que tipo de remédio logo terei de enfiar pelo nariz, o único buraco poupado até agora nesta gravidez.
Pois pelos buracos dos ouvidos já entrou cada droga: conselhos inúteis, críticas, histórias pavorosas de partos dolorosos e de bebês que tiveram cólicas todas as madrugas dos primeiros três meses de vida. Mas isso foi antes de eu descobrir o filtro gestacional.
22 comments 07/11/2009
Sem saída (o caso do fiofó entupido)
Sabe aqueles comerciais de TV que mostram iogurtes, suplementos naturais, benzedeiras e talismãs que prometem “um intestino que funciona como um relógio”? Sempre me causaram um misto de angústia, alegria e descrença. Angústia pela vergonha alheia que sentia ao ver atores, diretores e outros profissionais envolvidos na cômica e difícil tarefa de vender um produto que garante ao consumidor a certeza de cagar com hora marcada.
Alegria pelas risadas que algumas propagandas conseguiam provocar em mim – e em outros telespectadores, bem sei – ao apresentar o assunto. Como o tema é, digamos, assim…meio “preso”, fazem de tudo para tratá-lo com humor e a coisa acaba ficando meio ridícula.
Descrença na eficácia do produto e na existência de gente tão entupida e desesperada quanto aqueles atores mostrados nas propagandas. Não dava pra acreditar que alguém realmente tivesse tanta dificuldade para sentar lá no vaso sanitário, abrir o desktop, esvaziar a lixeira e clicar na descarga. A não ser que fosse algum sujeito com uma grave doença no intestino, o que não justificaria tomar litros de iogurte, mas sim procurar um médico.
Paguei minha língua. E paguei com o c*. Se eu acreditasse em castigo divino ou na lenda de que algumas pessoas tem poder de rogar pragas nas outras, explicaria de forma esotérica o meu fiofó entupido a partir da 30.a semana de gestação. Não que antes da gravidez eu fosse o tal “reloginho” da propaganda, mas “cagar ou não cagar” nunca foi “eis a questão” na minha vida. Era tão normal quanto tomar água ou puxar o freio de mão ao estacionar o carro. Coisa mecânica do dia a dia, que eu fazia sem prestar atenção. Bem diz o ditado que a gente só dá valor ao que tem depois que perde. E o poder de dar uma boa cagada antes de ir dormir é algo que a gente precisa valorizar, gente amiga!
Desconhecia a importância do assunto. Se ri dos entupidos, se zoei as propagandas de laxantes e iogurtes milagrosos, foi por pura ignorância. Só agora, aos 35 anos de experiência cagona (que começou com mecônios tímidos na década de 70, nas fraldinhas de pano que mamãe lavava) me dou conta de como o assunto “intestino” é constrangedor para a maioria das pessoas, inclusive para mim. Ao lavar o fiofó, senti com as pontas dos dedos que havia alguns carocinhos naquela área. Imagina o susto.
Passei um dia angustiada com aquilo, queria ligar pra médica mas não sabia por onde começar a explicação. Então procurei a ajuda da pessoa que melhor me conhece: por dentro e por fora. Por cima e por baixo. Na frente e atrás. Da perseguida ao fiofó. Aliás, ela até já havia passado talquinho no meu bumbum, antes da prática ser condenada, lá nos tempos dos alfinetes gigantes:
- “Tô com bolinhas no c*“, falei pra minha mãe.
Alívio quando mamãe sabe-tudo explicou que era normal. Pânico quando ela engatou no papel de enciclopédia materna e deu nome pra´quele fenômeno: “São hemorróidas, algumas mulheres tem isso na gravidez. Eu mesma tive, mas sumiram depois do parto”. Mais pânico quando ela disse que em alguns casos a coisa complica e uma prima havia até passado por uma cirurgia pra resolver o problema. Imaginei num futuro não muito distante meu destino de humilhação: uma sala de cirurgia, minha bunda pelada, arreganhada e erguida e um bando de médicos costurando meu fiofó. Pânico master blaster.
Mas nem assim consegui ligar pra médica. Mamãe aconselhou e eu aumentei a ingestão de fibras e água. Comprei litros do tal iogurte que prometia desentupir minha saída. Nada adiantou. Uma semana depois tive consulta com a obstetra e fiquei surpresa com a minha dificuldade em falar do assunto. Aquela mulher já havia me visto pelada, já havia enfiado até a mão na minha vagina, daqui a algum tempo vai trazer meu filho ao mundo… e eu ali com vergonha de falar que tinha uns carocinhos no fiofó. Parecia que a garganta ( não o c*) estava entupida. Tá certo que o fiofó é feinho demais, tadinho. E faz um serviço que não cheira nada bem. Mas o assunto era importante, eu sentia dor e aquela situação estava atrapalhando minha vida. Mesmo assim a reclamação não saía. Dei algumas voltas até conseguir chegar ao assunto e falei baixinho, olhando para o lado:
- Acho que estou com uns…umas…é….alguma coisa…lá…(comicamente apontei para trás com o dedão) sabe… minha mãe falou que é normal, que ela teve, que sarou depois, que chamam de…é…acho que é…são …ahn…hemorróidas.
Achei que a notícia teria um impacto tremendo sobre a médica. Fiquei esperando uma mexida incomodada na cadeira ou uma pigarreada para disfarçar o constrangimento.
- Sangra?
Lembra o pânico mega blaster? Foi promovido a chefe e demitiu todos os meus pudores:
- Essa porcaria pode sangrar, doutora????
Depois de um verdadeiro tratado sobre o que são hemorróidas, o tratamento, as possíveis complicações e a necessidade de manter o fiofó em ordem para a hora do parto normal, a médica prescreveu um medicamento fitoterápico para auxiliar no funcionamento do intestino e uma pomadinha que deve ser aplicada no fiofó toda noite, antes de dormir. Tudo de uso permitido na gravidez.
Meio sem graça, entreguei a receita médica ao marido. Um gentleman. Não fez perguntas. Mas deixou claro que estava por dentro do problema na saída do esgoto: junto com os remédios, trouxe também ameixas, aveia e mamão para a casa.
O fitoterápico fez efeito quase imediato e eu voltei a sorrir e a cantar.
Passei a ver o mundo com outros olhos - se é que você me entende.
Não dou mais risada dos comerciais de tv. Fico emocionada com eles, num sentimento de solidariedade aos que enfrentam congestionamentos gigantescos e horas eternas e suadas no banheiro. E um viva às ameixas! Hip hip hurra!!
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Saiba mais sobre o assunto no site do Dr. Drauzio Varella
26 comments 01/11/2009
Método de alargamento para o parto natural
Que fique claro que isso foi ANTES da travada. Aliás, bem antes (ou seja, não foi isso que causou a dor na coluna). Na cama, num momento raro de sexo selvagem durante a gravidez (lá pelo final do 7.o mês de gestação), eu de barrigão para cima e meu marido em cima, todo empolgado numa performance que quase me fez esquecer minhas formas atuais. Tentando me sentir pelo menos um pouco sexy, fixei bem o olhar no rosto lindo do meu marido e procurei não abaixar os olhos para o meu corpo.
Lembra de como você sempre achou uma delícia fazer isso. Concentra em como esse homem é gostoso e apaixonado por você. Finja que não tem uma barriga enorme, dois peitos soltando colostro e um par de pães pés inchados. Ignora suas toneladas a mais,mulher. Aproveita!Vai saber quando é que vocês vão ter tempo e ânimo pra isso depois que o bebê nascer e a vida for uma sequência de noites mal-dormidas, fraldas sujas e visitas ao pediatra.
Já tinha acatado a ordem da sexóloga Marta Suplicy e estava no maior clima “Relaxa e Goza”, aproveitando cada momento do rala e rola com o maridão, quando senti um chute bem no meio da barriga e uma cabeçada na altura da bexiga. Instintivamente olhei para a barriga.
(Sabe nos filmes e desenhos animados, quando tem alguém no alto de um prédio ou penhasco e dizem para não olhar para baixo? Daí a personagem olha para baixo, é tomada pelo medo e acaba despencando? Foi mais ou menos assim.)
Olhei para baixo e houve um efeito especial instantâneo: sumiu música, desapareceu tesão, perdi o rumo. A cada cutucada do bebê, menos vontade eu tinha. E o bebê não parava de mexer. Meu umbigo subia e descia como se fosse um balão sendo inflado e esvaziado. Marido percebeu, é claro, e perguntou se estava tudo bem.
Apontei o calombo na barriga, ele riu (sem parar o que estava fazendo).
- Será que ele tá sentindo alguma coisa?
- Deve estar gostando do balanço, né? – respondi.
- É isso aí, filhão. Aprenda com o papai! Já vai nascer sabendo das coisas.
Depois de uma conversa dessas, quem é que continuaria o sexo como se nada tivesse acontecido?
Resposta óbvia: um homem, é claro.
Eu já tinha perdido o interesse, só conseguia prestar atenção nos movimentos do bebê, que parecia ainda mais empolgado depois do papo com o pai. Marido percebeu:
- Não quer mais? Quer que eu pare?
- Ah, eu não consigo me concentrar com o bebê chutando assim…
- Se você quiser eu posso continuar. Assim vou alargando tudo aqui embaixo pra facilitar quando o bebê for sair.
Aí foi o fim, né? Comecei a rir, ele riu mais ainda, deitou do meu lado e foi aquela gozação. Mas não no sentido sexual da palavra.
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Sexo na gravidez
-> A não ser que haja alguma razão específica, os médicos liberam o sexo durante toda a gravidez. Alguns podem recomendar que não haja relação sexual a partir do oitavo mês, mas isso varia.
-> Algumas grávidas tem muita vontade de fazer sexo. Outras perdem totalmente o interesse. Isso também varia. O que não varia é a mania que as grávidas ninfomaníacas tem de ficar falando sobre como ficaram taradas durante a gestação.
-> Até uma certa fase, a posição de “conchinha”, com papai e mamãe deitados lado a lado (papai atrás da mamãe) é muito confortável. Depois o barrigão pode incomodar. Papais com braços fortes conseguem ficar por cima até o final da gestação (mas precisam ser realmente sarados, pois precisam apoiar todo o peso em seus braços, para não apertar a barriga da mamãe). Outra posição possível é a mamãe por cima, esmagando o papai (é ótima, pois assim papai tem a chance de descobrir como é que a mamãe normalmente se sente e decide fazer um regime).
-> Os médicos dizem que um pouquinho de sangramento ou dor após a relação é normal.
25 comments 20/10/2009
O dia em que a grávida travou
Fui sair do carro e não consegui. Travei. Não conseguia ir pra frente, nem pra trás. Tentei colocar uma perna para fora, mas uma dor aguda irradiou do rego em direção à coxa esquerda. Minha reação imediata foi recolher a perna. Doeu mais ainda. Então fiquei assim, sozinha, sentada no banco do carro, olhando para a parede da garagem, com uma perna para fora, à espera de um pouco de coragem para enfrentar a dor e levantar. Afinal, não poderia passar o resto do dia ali, naquela posição. Ou poderia? Olhei para os lados e vi a garrafa d´água que sempre carrego comigo, um pacote de biscoitos que havia comprado no caminho, um livro… Bom, talvez não fosse má ideia ficar ali imóvel durante algumas horas, até meu marido chegar e me tirar dali. Claro que cogitei isso por apenas alguns segundos. Era incômodo demais e, para piorar, eu estava com vontade de fazer xixi (como sempre).
Ok, colega, no três. E um…e dois…e dois e meio…e…
Quem depila a própria perna, virilha, buço.. ou o saco e as costas, no caso dos meninos, sabe o que eu senti. Foi igual ao momento em que a gente passa a cera, coloca o papelzinho (ou plástico) sobre a pele, segura a pontinha e precisa respirar fundo antes de puxar… Às vezes falta coragem. Se outra pessoa puxasse seria tão melhor.
Como numa depilação mal acabada fiquei ali cogitando: vou ou não vou?
Tentei sair devagar, mas a dor era muito forte e eu não conseguia vencer a barreira que ela criava. Acabava voltando para a posição anterior. Então levantei de uma vez só e dei um grito. Caminhei no melhor estilo Concurda de Notre Dame até o banheiro e fiz xixi praticamente em pé (na medida do possível), pois tinha medo de sentar e ficar travada lá na privada.
Sempre com dor, andando devagar e mancando, segui para a minha cama e lá fiquei até meu marido chegar. Só conseguia deitar de lado e não podia me mexer muito. Adormeci. Acordei uma hora depois com vontade de fazer xixi. Esqueci da coluna (bexiga de grávida sempre tem prioridade) e levantei de uma só vez. Gritei de dor. O ritual durou dois dias: deitada o tempo todo, com pausas apenas para ir ao banheiro e dificuldade imensa para sentar e comer alguma coisa.
No início da semana consegui uma consulta de emergência no ortopedista conhecido do meu irmão. Me apalpou, fez mil perguntas.
- É o cóccix. Provavelmente está trincado ou inflamado. Você levou algum tombo?
Não recentemente, pois fiquei muito cuidadosa na gravidez. Mas ao longo da minha trajetória foram vários: lavando banheiro, descendo escada, correndo em dia de chuva. Sou praticamente campeã da modalidade e a favorita do esporte nas Olimpíadas de 2016.
Seria preciso um raio-x pra confirmar. E remédios para amenizar a dor.
- Não, de jeito nenhum, não pode remédio, não pode exame.
Então conviva com isso. Bolsa de água quente na região dolorida, um pouco de massagem podem aliviar (vai, marido, trabalha!) e fisioterapia. Receitou também uma cinta ortopédica específica para grávidas, que serve para aliviar a coluna (minha mãe apelidou de “barrigueira de égua”).
No dia seguinte decidi procurar uma segunda opinião. Apalpou, fez mil perguntas.
- É lombalgia. É comum na gravidez.
Deve ser uma lombalgia no cóccix trincado. E se eu procurasse uma terceira opinião acabaria diagnosticada com uma lombalgia ciática no cóccix trincado da quinta vértebra. Melhor parar de entrar em carro e sair de carro para ir ao médico e ficar quieta em casa.
Pelo menos em uma coisa os dois médicos concordaram: engordei demais e o sobrepeso pode ter desencadeado o problema ou simplesmente revelado um problema que já existia, mas eu não tinha me dado conta ainda. Diagnóstico: a gula da grávida estava pesando no lombo velho de guerra.
Agora ainda sinto um pouco de dor se fico tempo demais sentada ou em pé. Mas voltei a caminhar normalmente sem mancar. A boa notícia é que finalmente, agora na 31.a semana de gestação, consegui a desculpa perfeita para não fazer sexo e contratar uma faxineira. Não necessariamente nessa ordem. Arranjar uma faxineira é sempre mais importante que qualquer coisa.
15 comments 19/10/2009
Cem gramas
Tirei essa foto aí acima na última consulta com a obstetra, há duas semanas. Hoje a coisa deve estar certamente está bem pior – e mais pesada. Foi assustador ver esses números no visor da balança. Um mês antes ele havia mostrado quatro quilos a menos! Na mesma hora, desconfiada das reais intenções daquela balança sacana, perguntei em voz alta:
- Como é que pode uma pessoa engordar quatro quilos em um mês? E treze quilos em sete meses?
Ela respondeu aumentando cem gramas depois da vírgula. Inaceitável! Ladra! Bandida! Cretina! Dei um passinho bem curto para trás e o “dois” virou “um” novamente. Como é que eu vou confiar numa balança que aumenta cem gramas quando a gente muda de lugar enquanto está em cima dela? Em vez de confiar, tentei usar aquilo a meu favor. Fiquei dançando sobre a balança pra pra ver se conseguia diminuir um pouco mais o peso denunciado pelo visor. Tentando encontrar um ponto que tirasse pelo menos um quilo. Mas ela só ía de 73,1 kg para 73,2 kg. E vice-versa. Ai, ser monótono! Só parei com aquele arrasta-pé ridículo em cima do aparelho quando me dei conta que havia uma grávida atrás de mim, esperando sua vez de enfrentar nossa inimiga mensal. Fui egoísta e não dividi com ela minha descoberta sobre a falha que permitia reduzir até 100 gramas. Não quis correr o risco de ser a única a levar bronca da obstetra (de novo!) naquele dia.
23 comments 30/09/2009
Perereca Adormecida (da série Sem Medo de Perguntar)
Continuamos com a divertida, informativa e totalmente cheia de micos série “Sem Medo de Perguntar”. Depois da introdução ao assunto, durante a qual explicamos o valioso método da cadernetinha de perguntas aliada a cara-de-pau da gestante, continuamos nossa série com as inúmeras perguntas que médicos, enfermeiros, amigos, blogueiros, pais, mães, vizinhos e oráculos podem ter de responder ao topar com uma gestante de primeira viagem.
No consultório, há duas semanas, virando mais uma página da cadernetinha de perguntas:
- Bom, doutora, vamos lá, minha décima quinta pergunta de hoje…
Minha médica é tão paciente (entendeu o trocadilho? médica…paciente…dãããã) que não suspira, nem revira os olhinhos, nem me xinga. Ela curva o corpo para a frente e faz um genuíno ar de interesse. Não sei se ela é maravilhosa mesmo assim ou se é uma atriz nata (Oi, Globo! Oi, Hollywood!). A sala de espera entupida de barrigudas zangadas pela demora e minha querida médica lá dentro, batendo papo comigo, esclarecendo ca-da-du-vi-da-zi-nha. Com direito a maquete do útero quando necessário e uns desenhos caprichados naquele bloco enorme de papel que cobre metade da mesa.
- Minha…é….vagina…ela está meio que…quer dizer…totalmente…adormecida. Anestesiada mesmo. Eu não sinto nada lá.
Sei que é quase ridículo, mas fico com vergonha de falar certas coisas até com a médica. Talvez se fosse por telefone ou e-mail. Mas olhos nos olhos quero ver o que você faz… não é fácil pra mim. Não tem nada a ver com timidez. É um lance pudico que me acompanha e do qual não consigo me livrar.
- Isso é normal – disse a médica sorrindo, mas não como se achasse graça da pergunta, mas sim como se fosse muito fofa a minha vagina adormecida - é seu corpo já se preparando para a saída do bebê. Isso é ótimo, mais um indicativo de que está tudo bem com vocês!
- Mas ainda não completei nem sete meses, não é um pouco cedo pra tudo estar tão…tão…em ritmo de saída já?
- Não! Não! É assim mesmo!
Então tá. Só espero que a dita-cuja lá embaixo não esteja esperando um beijinho para acordar. Por que a coisa promete ser bem mais intensa que uma simples bitoquinha de príncipe encantado. Você vai acordar na marra, bela adormecida!
9 comments 25/09/2009
Uma ameaça de 3 centímetros
E no meio do útero havia um mioma. Havia um mioma no meio do útero. Na
verdade não é bem no meio. Não entendi direito onde é. O que sei é que está em outra parede, muro,divisória do útero, sei lá como foi que a médica falou, só sei que está longe do lugar no qual meu bebê está crescendo. Ufa! Honestamente, não entendi muito bem a explicação da médica por que não consegui prestar atenção, só me concentrei na parte do “não oferece perigo para o seu bebê, não vai interferir na gravidez”. Depois disso, minha cabeça entrou num turbilhão de alegria e minha vontade era sair correndo dali, respirar um ar puro. Aliviada por saber que não havia risco para meu filho, sorri, agradeci e peguei minha bolsa. Foi o tempo do cérebro processar um pequeno interrogatório. Sentei novamente e disparei:
- Mas e se eu decidir ter outro filho depois? O mioma pode prejudicar?
Quem pergunta o que não deve, ouve o que não quer, já dizia minha avó.
Então a médica respirou fundo, me olhou ternamente e começou a falar pausadamente. Isso me assustou. Conheço essa mulher há anos. Sabia que ela estava se preparando para dizer algo que eu não ficaria feliz em ouvir:
- Talvez. Mas só saberemos disso mais pra frente, depois do parto. Quando seu útero voltar ao tamanho normal, faremos alguns exames e vamos acompanhar para ver o que acontece.
Um baque. Eu nem pensava em ter outra gestação. Mas aquilo me deixou triste como se eu tivesse planejado gerar um time de futebol. Saber que pode haver uma espécie de bomba-relógio anti-gestação circulando comigo por aí teve um efeito devastador. Me arrependi de ter perguntado. Estava feliz por saber que não afetava a atual gravidez. Por que fui perguntar sobre uma suposta gestação que em princípio nem deveria mesmo existir? Ah, é o tal controle sobre o próprio corpo, que desejamos tanto ter, mas parece escapar o tempo todo das nossas mãos. Ou do nosso útero. Já que havia estragado tudo com aquela pergunta, aproveitei para questionar um pouco mais:
- Esse mioma apareceu na gravidez? Por que ele não tinha sido detectado em outras ultrassonografias?
- Provavelmente já estava aí, não dá para ter certeza. Agora o útero está crescendo e o mioma está sendo “esticado” (ela fez sinal de aspas com os dedos) junto.
Perguntei ainda se esse mioma tinha alguma coisa haver com aquele hematoma que havia causado sangramento no início da gravidez. Ela disse que não.
A médica ainda falou um pouco mais sobre isso, que eu não deveria me preocupar agora, que o importante é que o bebê está bem, tudo está correndo bem, para eu me concentrar nisso e deixar para me preocupar com o mioma depois, por que faremos exames, etc.
Mas quem consegue esquecer uma conversa assim? Penso no mioma várias vezes por dia. Ele me causa arrepios e indignação. Não faz nada, está lá quietinho. Mas é uma possível ameaça silenciosa para a família numerosa que eu nem havia planejado ter antes de saber que talvez não possa mesmo gerá-la. Alguém entende esse sentimento? Eu não.
18 comments 21/09/2009
ERA UMA VEZ…
…uma menina muito amada, filha de pais maravilhosos, criada entre irmãos carinhosos (que trocavam porradas diariamente entre eles, mas ai se alguém de fora tentasse fazer o mesmo com um dos irmãos, nem pensar. O lema era “só eu posso bater no meu irmão”), que cresceu ouvindo sobre como seus pais haviam desejado aquela família, haviam planejado aquela casa cheia de crianças, uma nascendo logo após a outra e formando aquela barulhenta
“escadinha” infantil. Era uma vida simples, mantida com o salário de dois professores (na época isso ainda era profissão respeitada no Brasil). Mas era organizada e feliz. Pouca TV, muitas brincadeiras, muito carinho, amor e os livros. Ah…eles estavam por toda parte: nos quartos, sala, banheiro, quintal. Tropeçávamos nos grossos volumes com histórias sobre a turminha do Sítio do Picapau Amarelo, em coleções completas de clássicos infantis e em exemplares de uma didática literatura de iniciação sexual como o divertido “De Onde Viemos?”.
A menina podia conversar sobre o que quisesse com seus pais. Eles falavam sobre namorados, sexo, bebês, camisinha, doenças, anticoncepcional. Não havia mistério. Bastava perguntar e obter a resposta honesta, a explicação real. Nada de fantasia e enrolação. Tudo isso num tempo em que ainda não havia internet e nem os programas de tv com temas pré-adolescentes. Os amigos da menina não tinham aquela liberdade com os próprios pais. Era na casa da menina que eles buscavam soluções para algumas dúvidas mortais: “beijar engravida?”, “por que minha prima ficou menstruada e eu não?”, “o que é camisinha?”, “meus peitos vão crescer um dia?”
Os pais da menina sempre entenderam que o diálogo era a melhor forma de evitar que os filhos fizessem alguma besteira por pura falta de informação. Sabiam que deixar todas as vias de contato abertas criava uma rede de confiança dentro de casa, capaz de evitar que os filhos caíssem nas armadilhas do mundo lá fora. O maior medo dos pais era um possível envolvimento com drogas, o risco de doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas.
Além de muita conversa, havia também um trabalho rigoroso de fiscalização da conduta de cada um dos filhos. As regras em relação ao horário para chegar em casa à noite, por exemplo, eram muito rígidas. Claro que isso rendeu discussões e lágrimas todas as vezes em os adolescentes foram proibidos de ir a uma festa ou viagem com a turma. Brigas históricas aconteceram quando a menina arranjou o primeiro namorado e no dia em que o caçula disse que queria usar brinco. Eram pais que exigiam muito dos filhos no comportamento, no cuidado com a saúde e nos estudos.
Grávida de seu primeiro filho, a menina pensa em tudo o que os pais fizeram e ainda fazem por ela:
- Quanto trabalho eles tiveram!
Eles realmente educaram seus filhos. E isso não é fácil. Exige alto investimento de tempo, energia, dedicação, paciência. Tudo sem retorno garantido. Um trabalho feito para benefício do mundo, já que essas crianças preparadas com tanta dedicação e carinho logo se tornaram adultas e foram trilhar seus caminhos. Quando saíram de casa, estavam preparados, tinham a “cabeça feita”. Mesmo que os “amigos” provocassem: “Ah, como você é careta!”, os irmãos não mudavam de opinião, seguiam o que acreditavam, o que haviam aprendido. Nada de drogas, nem excessos alcoólicos (ok, talvez um ou dois porres em festas da universidade). As conversas sobre sexo seguro e maternidade/paternidade responsável foram as que renderam mais frutos. Aliás, não renderam. Os irmãos se tornaram adultos, formados em boas universidades, com bons empregos, bem casados e…sem filhos.
Os pais deles pediam:
- Ok, agora chega de tanto cuidado, queremos netos!
Mas os irmãos estavam munidos de muitas informações sobre o que é ter uma família. Tinham consciência da responsabilidade que é gerar uma vida. Todos ficaram anos planejando os filhos, em busca de mais preparo emocional e financeiro. Haviam aprendido com seus pais que o primeiro pensamento no momento da descoberta de um gravidez deve ser sempre:
- Que alegria!
E nunca:
- Que merda!
Algo que só é possível quando a criança é planejada e muito desejada. Loucos de vontade de ser avós, os pais dos irmãos já estavam quase arrependidos de tudo o que haviam ensinado sobre responsabilidade e controle de natalidade:
- Chega, queremos netos!
O pioneiro foi o caçula, seguido de perto pelos outros. A menina adorava os sobrinhos, mas ainda não sentia-se preparada. Ela já havia encontrado o amor da sua vida e juntos eles haviam decidido que um dia teriam um filho. Mas protelavam, sempre à espera do melhor momento, que não chegava nunca. A cada dia surgia uma nova razão para adiarem a chegada do filho: precisavam de um carro melhor, um dos dois havia ficado desempregado, uma doença que exigia cirurgia e tratamento, a pós-graduação precisava ser concluída, a possibilidade de mudança de cidade no ano seguinte.
No fundo ela sabia que o problema era outro: medo de não ser uma boa mãe, de não estar pronta para assumir a responsabilidade de ter em suas mãos a vida de outra pessoa, o futuro de alguém, o poder de moldar um destino. Receio de não ser capaz de lidar com a intensidade do amor incondicional que invadiria a sua vida e a de seu companheiro. Ela tinha os melhores pais do mundo e sonhava em ser capaz de oferecer aquilo a seu filho também. E se falhasse?
O tempo foi passando, ela tinha agora 34 anos. Teria ficado tarde? Seria melhor deixar para lá?
Perguntas respondidas numa noite de verão. Haviam acabado de completar seis anos de casados, estavam deitados lado a lado, num daqueles momentos de total cumplicidade e ternura dos amores sãos. Ele falou:
- Vamos ter um filho.
Ela queria, mas…
- …as prestações da casa…e essa crise mundial…tem uma ameaça de demissão no ar…e eu já tenho 34 anos..não ficou tarde demais?
Ele olhou bem para ela e não precisou usar palavras. No olhar dele estavam descritas todas as razões. Era a hora de calar a mente e deixar o coração falar. Havia amor, maturidade, união e uma casa espaçosa com um bom quintal. Vai dar certo! Seremos capazes! – eles disseram um ao outro, sem precisar abrir a boca.
E então veio o melhor da festa: fazer o filho. Duas pessoas apaixonadas e concentradas numa missão cheia de amor. O melhor sexo da vida deles. Estavam adorando a perspectiva de passar algum tempo naquele divertido e prazeroso pr
ojeto:
- Ah, nós vamos ficar alguns meses nisso, tentando fazer esse filho. Certeza!
Apenas duas semanas e meia depois ela descobriu que estava grávida e contou ao marido:
- Que alegria! - exclamaram juntos.
E viveram felizes para sempre. Nos meses seguintes a alegria foi interrompida várias algumas vezes por crises de angústia, choro, gases, incertezas, insônia, cãimbras.
E jamais será possível escrever nesta história o tradicional “FIM” dos contos que começam com “ERA UMA VEZ..”, pois a maternidade/paternidade é uma aventura sem final, é um aprendizado que começa ainda quando os futuros papais são apenas meninas e meninos.
19 comments 11/09/2009
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