Arquivo para julho 5th, 2009




Piti de grávida (nove meses de TPM)

Turma reunida, marido comandando a churrasqueira, música ligada, todos falam ao mesmo tempo sem parar, ando pra cá e pra lá, encho copos, distribuo talheres, corto tomates, lavo verduras, checo se todos estão bem servidos, coloco mais farofa no potinho, ofereço suco para quem não bebe cerveja e refrigerante, paro aqui e ali para responder alguma coisa, fazer comentário, dar uma risada. Enfim, o de sempre nos fins de semana na minha casa. Menos por um detalhe: agora tô grávida e esse vai e vem já não é mais tão divertido. Logo dói aqui, dói ali, fico cansada rapidamente, não dormi bem à noite, paro várias vezes pra fazer xixi. Mesmo assim, continuo minha dança da anfitriã, enquanto os ouvidos filtram tudo o que chega:

“Menina, pára um pouco, você tá grávida! (**Jura? Se você não me avisa, eu nem tinha notado…sabia?**)

–   “Larga isso, deixa que a gente faz” (sei sei sei)

– “Descansa um pouco”, “Você pode comer isso?”, “Você precisa comer! Eu não vi você comendo nada ainda…”

– “Quantos quilos engordou?”

– “Acho que essa barriga é menina”

– “Quando eu tava grávida fazia diferente”, blá blá blá

Aí marido pede: faz creme de alho? Já tinha montado um prato lindo de alhosalada, ía finalmente repousar meu rechonchudo corpinho, mas acho a idéia boa, afinal,  a turma gosta, são só uns minutinhos pra preparar o creme. “Faço. Descasca o alho que faço.” Pego liquidifcador, jogo um pouquinho (50ml) de leite lá dentro, o dente de alho picado pelo marido. Ligo o aparelho e vou acrescentando óleo. Enfim, o de sempre nos churrascos de finais de semana. Vejo que a boca do marido se move, ele fala alguma coisa pra mim. Mas não entendo. É gente que conversa pra todo lado, música ligada, liquidificador rugindo. O quêêêê? Preciso gritar pra ele ouvir. Ele grita de volta: Tá pondo muito óóóóleo. Grito que não é não. Mas ele continua falando: que exagerei, foi muito leite, agora é muito óleo, que assim fica ruim. Respiro fundo e grito que é óleo de girassol, que não tô pondo muito, que tô fazendo como sempre fiz.

Mas ele continua falando, gravidagordabravareclamando. A amiga ao lado sai em minha defesa, fala que é assim mesmo. A outra pergunta se o leite é desnatado e vem em cima de mim pra olhar de perto o creme no liquidificador. O barulho parece maior, olho meu prato de salada esquecido num canto. Fome. Sinto as pernas doerem. Os olhos ardem e me lembram que foi uma noite horrível, não dormi quase nada, por que tive tantos gases que dava pra abastecer o gaseoduto da Bolívia durante  meses. Sem falar no cachorro do vizinho que latiu em primeira marcha durante quatro horas seguidas de madrugada.

O creme de alho tá quase no ponto, mas marido fala mais alguma coisa e alguém concorda que é muito óleo, que aquilo faz mal pra saúde. “Ainda mais grávida, não deve comer essas coisas”. Aparece outro pra dizer que é assim mesmo que prepara, viu a ex-mulher fazer uma vez. Marido chega perto e fala de novo que tô fazendo muito creme, por que exagerei na quantidade de leite e (apesar do meu olhar ameaçador, cheio de hormônios agressivos e perigosos) espia por cima do meu ombro pra ver mais de perto como é que tá ficando tudo.

chegaaaaaaAí o barulho do liquidificador parece mais alto, a barriga fica mais pesada, os olhos ardem, a música me irrita. Berro: CHEGAAAAAA! Arranco o troço da tomada e grito como se o liquidificador ainda estivesse ligado: JÁ QUE VOCÊ SABE FAZER, ENTÃO FAÇA! Minha voz ecoa. Silêncio total. A música some, todo mundo fica  quieto, até o cachorro do vizinho parece que não late mais. Ouço apenas uns estalinhos da brasa na churrasqueira.

Ponho a mão na barriga (peguei mania disso), tenho vontade de chorar. Alguém me consola, me põe sentada numa cadeira. Os homens olham assustados, as mulheres me observam ternamente, algumas movem a cabeça para frente e para trás lentamente. Sinto o rosto vermelho. Não sei se é do choro contido ou de vergonha. Aparece um copo d´água com açúcar. “Não fica assim, calma..” Alguém assume o liquidificador e conclui a tarefa que eu abandonei. Me sinto péssima. Tenho vontade de pedir desculpas, mas não consigo. Não quero mais comer. Nem falar. Nem nada. Vontade de enfiar a cabeça num buraco e só sair depois do puerpério.

Aos poucos os sons vão voltando. Alguém faz uma piada. Creme de alho é servido. Experimento minha salada e a fome reaparece. Fingem que não aconteceu nada ou realmente não ligam. Falam do tempo, do Sarney, do Michael Jackson. Meu piti parece ter sido esquecido. Tô quase recuperada, quando chega um convidado atrasado. Cumprimenta todo mundo e marido serve carne para ele, junto com creme de alho. O convidado observa desconfiado: que é isso? Marido (realmente sem noção do perigo) arrisca perder todos os dentes da boca e ainda dormir no sofá, mas responde assim, todo crítico de novo, provocando:

–   “É creme de alho, é gostoso, experimenta…se bem que este ficou forte demais.”

Grrrrrrrrr….Será que se eu jogar o liquidificador na cabeça dele ganho TacaOLiquidificadorredução de pena por causa dos hormônios em ebulição? Brincadeirinha, eu jamais faria isso. O liquidificador é novinho em folha (e é excelente).

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24 comentários 05/07/2009

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