Arquivo para julho 9th, 2009




Cabeça de grávida ataca novamente

amnesiaDesta vez foi mais constrangedor pois havia testemunhas. No dia do grão de bico queimado eu estava sozinha e depois contei só pra minha mãe.  Agora não. O mico-grávido aconteceu numa sala lotada. Por sugestão da minha obstetra, marquei consulta com um médico especializado em veieira veias circulação para indicar se eu devo usar meias, por que apareceram alguns “vasinhos” nas minhas pernas (vasinhos é um jeito suave de nomear os “filhotes de varizes”). Sala de espera lotada, entra  a grávida esbaforida (fazia muito calor na rua, eu tinha saído de casa atrasada como sempre  e estava em estado quase de choque, por que ao parar no estacionamento da clínica havia descoberto que guiara meu carro durante uns 4 km com o freio de mão puxado!).

Ainda impressionada com a minha barbeirice no trânsito , sou atendida por uma secretária suuuuuper simpática (mesmo!) e sorridente. Ela  pede carteirinha do plano de saúde e documento de identidade. Me acomodo na  cadeira, coloco a bolsa na cadeira ao lado (grávida é espaçosa), a pasta com exames por baixo e não sei o que faço com as revistas (Pais&Filhos, Crescer e G Magazine que levei pra ler enquanto tomo mais um chá de cadeira numa sala de espera de clínica médica). Deixo cair as revistas, quando abaixo pra pegar, derrubo meu celular, daí abaixo de novo e de rabo de olhos vejo que um monte de gente olha pra mim com curiosidade. Ok, consegui atenção, não estou mais sozinha no mundo.

Secretária (polidamente fingindo que não notou meu comportamento estabanado) – Primeira consulta?

– Sim.

-Vamos preencher um cadastro, então?

– Ok.

– Nome? Profissão? Estado Civil? Data de Nascimento?

Respondo tudo sem pestanejar e nem minto a idade (por que pro médico a gente precisa contar a verdade, doa a quem doer). Daí ela pergunta o nome da rua onde moro. Começo a responder:

– Antônio….

Ela escreve: A-N-T-Ô-N-I-O  e olha pra mim.

Tento, mas não consigo lembrar o resto. Que aflição. As próximas palavras não estão na ponta da língua, nem perto dela. Não estão em nenhum lugar. Pacientemente, a secretária sorri pra mim. Reviro meu cérebro, mas não encontro nenhuma pista do meu endereço. Pelo jeito, além de puxar o freio de mão do carro, também puxei o freio de mão do meu hipocampo. Digo constrangida que não consigo lembrar o outro nome da rua. Aliás, não  lembro nem se tem mais um nome ou dois. Só lembro o primeiro. Procuro nas minhas coisas um documento que tenha o endereço completo, mas não acho. Explico: “Estou grávida, a médica disse que esse tipo de coisa acontece, sabe, os hormônios deixam o cérebro meio lerdinho”. Ela sorri.

Decido ligar para o marido e perguntar o nosso endereço. Toca toca toca e não atende. Caixa postal. Desligo. Mais tarde dei graças a Deus por ele não ter atendido. Por que depois decido não contar sobre minha amnésia temporária. Já pensou se ele apavora e não deixa mais eu sair de casa sozinha, com medo de eu não saber voltar? Pergunto se posso informar o endereço depois, por que vou tentar lembrar com calma. A secretária fala que não faz mal e consigo responder às outras questões (telefone para contato, quem indicou o médico, etc.). Consulta autorizada, ela avisa, sempre sorridente:

– Agora é só aguardar, logo será chamada.

Antes de levantar, tento explicar:

– Olha, eu mudei há duas semanas, ainda estou com o endereço velho na cabeça.

Mentira deslavada, moro desde o ano passado na mesma casa. Ela sorri. Ai, moça, para de sorrir que tô ficando deprimida. Fala logo que eu sou uma lesma gorda que não sabe nem onde mora. Levanto e deixo escapar a pérola do dia:

– Bom, não lembro o nome, tudo bem, mas o importante mesmo é que pelo menos eu sei chegar lá, né?

Ela sorri.

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30 comentários 09/07/2009

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