Arquivo para julho 20th, 2009




Vovó grávida

cabelosbrancos

Por uma questão de genética eu sou obrigada a colorir os cabelos pelo menos uma vez por mês. É que sou filha do Papai Noel. Desde os 25 anos (ou seja, há quase 10 anos) tem sido assim: tinta sobre tinta. Assim que aparecem os primeiros indícios dos famigerados cabelos brancos pego o telefone e ligo para a equipe de resgate do meu salão favorito: “Meninas, socorro!”

Rejeito cada um desses fiozinhos medíocres com todas minhas forças.  Não satisfeitos com o fato de serem brancos e destoarem de todo o resto da minha vasta cabeleira, os safados ainda são mais grossos e espetados. Exibidos. Abusados. Cretinos despigmentados. Basta um cabelinho desses para denunciar a suposta idade de quem está logo abaixo dele. No caso: eu.

Se não fosse isso, eu jamais teria passado química no cabelo. Não gosto, tenho pavor, acho que faz mal e nunca experimentei outro tipo de gororoba capilar. Antes da invasão do Exército Branco, eu só aparecia no salão para cortar os cabelos. Mesmo assim era raro, pois tinha preguiça. Só que o pavor da química foi vencido pelo pavor de ficar parecer velha. Nesses dez anos, nunca fiquei mais de um mês sem tinta, por isso não tinha noção de quantos cabelos brancos já habitavam meu cocoruto.

Mistério que a gravidez elucidou, para meu desespero. Desde que soube quecabeloscoloridos estava grávida parei de colorir os cabelos. A médica alertou que mesmo os produtos que dizem não conter amônia podem ser prejudiciais. Não há estudos conclusivos sobre a prática de colorir os cabelos na gravidez e não dá para ter certeza do que vai acontecer com o bebê. Então ela orientou: “Não passe nada, mesmo que digam que isso pode, aquilo não fez mal na gravidez de fulana, este outro tem componentes naturais. Não pode colorir.” Obedeço.

Já nem quero me olhar no espelho, assim evito encarar essa aberração sobre a minha cabeça. Depois de quarenta dias, a turma do Gasparzinho Fantasma Camarada começou a ficar mais branquinha e visível. Agora, após mais de quatro meses sem reboque, a pintura original está toda à mostra. É oficial: sou uma vovó grávida.   Tentei de tudo: usar chapéus, gorros, faixas. Mas eles são muitos, rebeldes e exibidos. Para me derrubar ainda mais, sempre tem alguém pra apontar e comentar: “NOSSA, quantos cabelos brancos”. Sofro.

No fim de semana minha sobrinha de 8 anos me salvou de desabar em lágrimas de novo por conta do meu aeroporto coberto de neve. Ri muito. Percebi que ela estava olhando para o alto da minha cabeça e pensei “até tu?”,  já me preparando para explicar que cabelos brancos não são sintomas de senilidade, é apenas uma questão de (falta de) pigmentação, genética, azar e proibição médica de passar tinta para disfarçar.

Mas a pequena soltou esta:

– Tia, você fez umas mechas lindas no cabelo. A mamãe também tem mechas.

29 comentários 20/07/2009

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