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Uma ameaça de 3 centímetros

E no meio do útero havia um mioma. Havia um mioma no meio do útero. NaFlorMurcha verdade não é bem no meio. Não entendi direito onde é. O que sei é que está em outra parede, muro,divisória do útero, sei lá como foi que a médica falou, só sei que está longe do lugar no qual meu bebê está crescendo. Ufa! Honestamente, não entendi muito bem a explicação da médica por que não consegui prestar atenção, só me concentrei na parte do “não oferece perigo para o seu bebê, não vai interferir na gravidez”. Depois disso, minha cabeça entrou num turbilhão de alegria e minha vontade era sair correndo dali, respirar um ar puro. Aliviada por saber que não havia risco para meu filho, sorri, agradeci e peguei minha bolsa. Foi o tempo do cérebro processar um pequeno interrogatório. Sentei novamente e disparei:

– Mas e se eu decidir ter outro filho depois? O mioma pode prejudicar?

Quem pergunta o que não deve, ouve o que não quer, já dizia minha avó.

Então a médica respirou fundo, me olhou ternamente e começou a falar pausadamente. Isso me assustou. Conheço essa mulher há anos. Sabia que ela estava se preparando para dizer algo que eu não ficaria feliz em ouvir:

Talvez. Mas só saberemos disso mais pra frente, depois do parto. Quando seu útero voltar ao tamanho normal, faremos alguns exames e vamos acompanhar para ver o que acontece.

Um baque. Eu nem pensava em ter outra gestação. Mas aquilo me deixou triste como se eu tivesse planejado gerar um time de futebol. Saber que pode haver uma espécie de bomba-relógio anti-gestação circulando comigo por aí teve um efeito devastador. Me arrependi de ter perguntado. Estava feliz por saber que não afetava a atual gravidez. Por que fui perguntar sobre uma suposta gestação que em princípio nem deveria mesmo existir? Ah, é o tal controle sobre o próprio corpo, que desejamos tanto ter, mas parece escapar o tempo todo das nossas mãos. Ou do nosso útero. Já que havia estragado tudo com aquela pergunta, aproveitei para questionar um pouco mais:

– Esse mioma apareceu na gravidez? Por que ele não tinha sido detectado em outras ultrassonografias?

– Provavelmente já estava aí, não dá para ter certeza. Agora o útero está crescendo e o mioma está sendo “esticado” (ela fez sinal de aspas com os dedos) junto.

Perguntei ainda se esse mioma tinha alguma coisa haver com aquele hematoma que havia causado sangramento no início da gravidez. Ela disse que não.

A médica ainda falou um pouco mais sobre isso, que eu não deveria me preocupar agora, que o importante é que o bebê está bem, tudo está correndo bem, para eu me concentrar nisso e deixar para me preocupar com o mioma depois, por que faremos exames, etc.

Mas quem consegue esquecer uma conversa assim? Penso no mioma várias vezes por dia. Ele me causa arrepios e indignação. Não faz nada, está lá quietinho. Mas é uma possível ameaça silenciosa para a família numerosa que eu nem havia planejado ter antes de saber que talvez não possa mesmo gerá-la. Alguém entende esse sentimento? Eu não.

18 comentários 21/09/2009

Doce exame amargo

A balança do consultório da minha obstetra é uma dedo-duro. Na semana emgravidabalanca4 que completei 22 semanas de gestação, a maquininha linguaruda me denunciou:  engordei 3 quilos em um mês.  Levei um susto.  A médica tratou de me assustar mais: “o que está acontecendo com você, ganho de peso rapidamente, muita sede e pernas inchadas, podem ser sintomas de diabetes gestacional“.

Recomendou que eu fizesse com urgência um exame de sangue chamado Curva Glicêmica. Já tinha ouvido falar que diabetes gestacional pode colocar a vida do bebê em risco e prejudicar a hora do parto. Comecei a chorar. “A culpa é toda minha, como doce demais, massas demais, não faço caminhadas como deveria…” Didática e paciente como sempre, a médica explicou que não era bem assim, que poderia ser genético ou simplesmente uma reação do meu organismo às mudanças hormonais. Ela falou que a grande quantidade de hormônios produzidos pela placenta gera resistência à ação da insulina no organismo da gestante. Em algumas grávidas, essa resistência é muito alta e aí ocorre o diabetes gestacional, que costuma aparecer por volta da vigésima quarta semana de gravidez.  Por isso mesmo quando não há sintomas, o médico pode pedir um exame para avaliar as taxas de glicose no oganismo da gestante.
O diabetes gestacional pode ocasionar várias complicações para o bebê, como peso elevado ao nascer, e para a mãe, que pode sofrer com pressão alta, aumento do risco de cesárea, eclampsia e desenvolvimento de diabetes após o parto. Quanto antes for detectado o problema, maiores as chances de não haver riscos para o bebê, nem para a mamãe. Se constatada a doença, a primeira providência é modificar a dieta alimentar da mãe.

Fui para a casa chateada. Não conseguia pensar em outra coisa. Estava com fome, mas sentia medo de comer alguma coisa que não fizesse bem para o bebê. É, na minha cabeça já estava tudo resolvido: eu tinha diabetes, teria de controlar a alimentação, meu mundo grávido e docinho havia caído.

Como sempre, a expectativa pelo exame virou um drama Almodovariano na minha cabeça. Sofrer por antecipação é praticamente um hobby para mim. Não que eu goste de ser assim, mas é uma daquelas características natas com as quais a gente é obrigada a conviver a vida toda, por que não há experiência de vida, terapia, nem Floral de Bach que resolva.

Todo mundo dizia que eu não tinha nada. Meu marido, minha mãe…eram unânimes: você não tem nada, você vai ver, esse exame não vai dar em nada. A certeza deles me deixava mais triste ainda. “Ninguém liga pra mim, estou doente e eles não se importam” (ai, TV Globo, olha o talento dramático que vocês estão perdendo aqui).

Eu falava do meu excesso de peso e todos diziam que não parecia que eu havia engordado. “Você está ótima! Não engordou muito, não! “ – ouvia dos parentes, amigos, vizinhos e até desconhecidos na fila do supermercado.

Nos três dias que antecederam o exame, passei a me alimentar melhor ainda do que antes. Cortei o excesso de carboidrato, eliminei totalmente os doces da dieta, comi mais frutas, grãos e legumes. O consumo de arroz integral – que era esporádico – passou a ser obrigatório. Fui uma grávida modelo naquele período. Sou fã de doces e ficar sem minha geleia preferida no café da manhã ou a fatia de bolo do lanche da tarde me deixou meio chateada. Mas eu só pensava na saúde do meu filho.

Grávida mascarada

michaeljacksonmascaraMeu marido nem queria que eu fosse fazer o exame. Ele estava com medo mesmo era de eu pegar alguma “doença de verdade” (era o que ele dizia) na sala de espera do laboratório de análises clínicas, um lugar que vive apinhado de gente com suspeita de todo tipo de moléstia (inclusive a famigerada Gripe A Suína).  A obstetra também alertou sobre esse perigo e orientou para que eu usasse máscara. Me senti meio Michael Jackson, pagando um mico danado com aquela máscara, mas resolvi não arriscar. Além disso, carreguei comigo um tubo de álcool gel para o laboratório na hora do exame.

Um doce exame

Jejum de oito horas para uma grávida esfomeada como eu já é um sacrifício. BebidinhadocMas o que veio depois foi ainda pior. Com uma agulha bem fininha, a enfermeira tirou um tubinho de sangue do meu braço direito, fez umas anotações e pediu que eu tomasse dois copos bem cheios de uma substância que era açúcar puro. Parecia um refresco desses em em pó, de saquinho, que geralmente é preparado na proporção de UM saquinho para cada DOIS litros de água. No exame a proporção deve ser algo como DEZ saquinhos para cada 200 ml de água. Pensa numa coisa doce. Agora pensa nessa coisa doce mergulhada num pacote de açúcar refinado. Tá quase perto…

– Não pode vomitar, hein? – disse a enfermeira.

Ao ouvir isso, quase não consegui tomar o segundo copinho, fiquei imaginando quantas grávidas haviam vomitado ali. Devia ser normal botar aquela calda açúcarada pra fora. Não vomitei até agora esta gravidez inteira, não é agora que vão me derrubar, né? Respirei fundo, fechei os olhos e virei de uma vez o segundo copinho, sentindo o açúcar bater no estômago vazio. A sensação foi de que minha boca inteirinha estava melada de tanto doce. Senti vontade de vomitar, ergui a cabeça e pensei no bebê. Pedi água, mas a enfermeira deu apenas um golinho, servido num copinho daqueles pequenos (de café) e avisou que eu não poderia beber água até o final do exame.

Olhei para ela atônita: – Tá brincando, né?

E quanto tempo mais ou menos vai durar este exame? – perguntou meu marido.

– Mais três horas. – respondeu a enfermeira e, em seguida, espetou meu outro braço para coletar mais uma amostra de sangue.

A partir daí, de tempos em tempos entrava alguém na sala para me espetar de novo. Além da sede, eu sentia muita vontade de fazer xixi. Quando a segunda enfermeira apareceu, perguntei se podia ir ao banheiro e ela disse que sim. Alívio! Cada ida ao banheiro era acompanhada por um ritual digno de quem sofre de TOC:  tudo para não encostar na maçaneta da porta, na torneira da pia, na tampa do vaso sanitário. E na volta para a sala de exame eu esfregava as mãos e os pulsos com álcool gel, apavorada. Tudo sem tirar a máscara.  Gravidez em tempos de gripe é uma paranóia.

Meu bebê, que acha que meu útero é trio elétrico da Bahia, começou a pular mais ainda (onde é que esse guri arranjou uma cama elástica???).  A enfermeira falou que as gestantes sempre relatavam o aumento da movimentação do bebê depois que ingeriam a substância super doce. E ainda tem gente que fala que o que a mãe come não influencia, nem afeta o bebê. O jejum e o açúcar derrubaram um pouco minha pressão, por isso fiquei deitada até o final do exame, observando a festa que acontecia dentro da minha barriga. Meu marido ficou sentadinho ao meu lado, com a mão sobre o meu ventre,  encantado com a coreografia saltitante do bebê, enquanto eu me controlava para não pular sobre o bebedouro no corredor. Sede…sede…sede.

Três novas espetadas nos braços depois e finalmente fui liberada para ir pra casa. Bebi quase um litro de água de uma vez. Depois, só pensava em comer alimentos salgados. O exame tirou minha vontade de doces durante uns dois dias. Via um doce e sentia um pouco de ânsia ao lembrar da “limonada” do exame. Fiquei com um pique danado o resto da manhã, plugada na tomada. Mas na hora do almoço alguém puxou o fio e eu desconectei. Uma moleza profunda tomou conta de mim. Parecia que estava dopada. Passei a tarde deitada, sonolenta e fadigada, com uma sede que não acabava nunca.

– Saia açúcar. Saia deste corpo que não te pertence!

Doce resultado

Passei o dia inteiro ansiosa para saber o resultado do exame, que foi VivaPassamosNoExamepublicado no site do laboratório naquela mesma noite. Aos meus olhos leigos, aqueles números pareciam muito bons. Mas não sou médica para interpretar exames de sangue e não sosseguei enquanto a obstetra não viu o resultado no dia seguinte e bateu o martelo: “está tudo bem”. Passei no exame com louvor. Meu organismo está metabolizando a glicose direitinho, sem faltar nenhum dia, inclusive feriados.

Fiquei tão feliz e aliviada. Queria abraçar alguém e nessa hora só me ocorria a imagem de uma pessoa: a dona da sorveteria do meu bairro. Meu filho está bem, eu estou bem e Kibon que eu posso comer doce sem restrições.

Enquanto meu marido, minha mãe e até o papagaio do vizinho diziam em coro: “viu, a gente falou que não era nada, que estava tudo bem”, eu só pensava em comemorar o resultado com um belo pote de sorvete, acompanhado de uma generosa fatia de bolo de chocolate com calda quente.

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32 comentários 23/08/2009

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