Posts filed under: ‘Gestação‘




Uma ameaça de 3 centímetros

E no meio do útero havia um mioma. Havia um mioma no meio do útero. NaFlorMurcha verdade não é bem no meio. Não entendi direito onde é. O que sei é que está em outra parede, muro,divisória do útero, sei lá como foi que a médica falou, só sei que está longe do lugar no qual meu bebê está crescendo. Ufa! Honestamente, não entendi muito bem a explicação da médica por que não consegui prestar atenção, só me concentrei na parte do “não oferece perigo para o seu bebê, não vai interferir na gravidez”. Depois disso, minha cabeça entrou num turbilhão de alegria e minha vontade era sair correndo dali, respirar um ar puro. Aliviada por saber que não havia risco para meu filho, sorri, agradeci e peguei minha bolsa. Foi o tempo do cérebro processar um pequeno interrogatório. Sentei novamente e disparei:

– Mas e se eu decidir ter outro filho depois? O mioma pode prejudicar?

Quem pergunta o que não deve, ouve o que não quer, já dizia minha avó.

Então a médica respirou fundo, me olhou ternamente e começou a falar pausadamente. Isso me assustou. Conheço essa mulher há anos. Sabia que ela estava se preparando para dizer algo que eu não ficaria feliz em ouvir:

Talvez. Mas só saberemos disso mais pra frente, depois do parto. Quando seu útero voltar ao tamanho normal, faremos alguns exames e vamos acompanhar para ver o que acontece.

Um baque. Eu nem pensava em ter outra gestação. Mas aquilo me deixou triste como se eu tivesse planejado gerar um time de futebol. Saber que pode haver uma espécie de bomba-relógio anti-gestação circulando comigo por aí teve um efeito devastador. Me arrependi de ter perguntado. Estava feliz por saber que não afetava a atual gravidez. Por que fui perguntar sobre uma suposta gestação que em princípio nem deveria mesmo existir? Ah, é o tal controle sobre o próprio corpo, que desejamos tanto ter, mas parece escapar o tempo todo das nossas mãos. Ou do nosso útero. Já que havia estragado tudo com aquela pergunta, aproveitei para questionar um pouco mais:

– Esse mioma apareceu na gravidez? Por que ele não tinha sido detectado em outras ultrassonografias?

– Provavelmente já estava aí, não dá para ter certeza. Agora o útero está crescendo e o mioma está sendo “esticado” (ela fez sinal de aspas com os dedos) junto.

Perguntei ainda se esse mioma tinha alguma coisa haver com aquele hematoma que havia causado sangramento no início da gravidez. Ela disse que não.

A médica ainda falou um pouco mais sobre isso, que eu não deveria me preocupar agora, que o importante é que o bebê está bem, tudo está correndo bem, para eu me concentrar nisso e deixar para me preocupar com o mioma depois, por que faremos exames, etc.

Mas quem consegue esquecer uma conversa assim? Penso no mioma várias vezes por dia. Ele me causa arrepios e indignação. Não faz nada, está lá quietinho. Mas é uma possível ameaça silenciosa para a família numerosa que eu nem havia planejado ter antes de saber que talvez não possa mesmo gerá-la. Alguém entende esse sentimento? Eu não.

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18 comentários 21/09/2009

ERA UMA VEZ…

InfanciaFeliz…uma menina muito amada, filha de pais maravilhosos, criada entre irmãos carinhosos (que trocavam porradas diariamente entre eles, mas ai se alguém de fora tentasse fazer o mesmo com um dos irmãos, nem pensar. O lema era “só eu posso bater no meu irmão”), que cresceu ouvindo sobre como seus pais haviam desejado aquela família, haviam planejado aquela casa cheia de crianças, uma nascendo logo após a outra e formando aquela barulhenta EuComiaLivros“escadinha” infantil. Era uma vida simples,  mantida com o salário de dois professores (na época isso ainda era profissão respeitada no Brasil). Mas era organizada e feliz. Pouca TV, muitas brincadeiras, muito carinho, amor e os livros. Ah…eles estavam por toda parte: nos quartos, sala, banheiro, quintal. Tropeçávamos nos grossos volumes com histórias sobre a turminha do Sítio do Picapau Amarelo, em coleções completas de clássicos infantis e em exemplares de uma didática literatura de iniciação sexual como o divertido “De Onde Viemos?”.

A menina podia conversar sobre o que quisesse com seus pais. Eles falavam sobre namorados, sexo, bebês, camisinha, doenças, anticoncepcional. Não havia mistério. Bastava perguntar e obter a resposta honesta, a explicação real. Nada de fantasia e enrolação. Tudo isso num tempo em que ainda não havia internet e nem os programas de tv com temas pré-adolescentes. Os amigos da menina não tinham aquela liberdade com os próprios pais. Era na casa da menina que eles buscavam soluções para algumas dúvidas mortais: “beijar engravida?”, “por que minha prima ficou menstruada e eu não?”, “o que é camisinha?”, “meus peitos vão crescer um dia?”

Os pais da menina sempre entenderam que o diálogo era a melhor forma de evitar que os filhos fizessem alguma besteira por pura falta de informação.  Sabiam que deixar todas as vias de contato abertas criava uma rede de confiança dentro de casa, capaz de evitar que os filhos caíssem nas armadilhas do mundo lá fora. O maior medo dos pais era um possível envolvimento com drogas, o risco de doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas.

PaiZelosoAlém de muita conversa, havia também um trabalho rigoroso de fiscalização da conduta de cada um dos filhos. As regras em relação ao horário para chegar em casa à noite, por exemplo, eram muito rígidas. Claro que isso rendeu discussões e lágrimas todas as vezes em os adolescentes foram proibidos de ir a uma festa ou viagem com a turma. Brigas históricas aconteceram quando a menina arranjou o primeiro namorado e no dia em que o caçula disse que queria usar brinco. Eram pais que exigiam muito dos filhos no comportamento, no cuidado com a saúde e nos estudos.

Grávida de seu primeiro filho, a menina pensa em tudo o que os pais fizeram e ainda fazem por ela:

– Quanto trabalho eles tiveram!

Eles realmente educaram seus filhos. E isso não é fácil. Exige alto investimento de tempo, energia, dedicação, paciência. Tudo sem retorno garantido. Um trabalho feito para benefício do mundo, já que essas crianças preparadas com tanta dedicação e carinho logo se tornaram adultas e foram trilhar seus caminhos. Quando saíram de casa, estavam preparados, tinham a “cabeça feita”. Mesmo que os “amigos” provocassem: “Ah, como você é careta!”, os irmãos não mudavam de opinião, seguiam o que acreditavam, o que haviam aprendido. Nada de drogas, nem excessos alcoólicos (ok, talvez um ou dois porres em festas da universidade). As conversas sobre sexo seguro e maternidade/paternidade responsável foram as que renderam mais frutos. Aliás, não renderam. Os irmãos se tornaram adultos, formados em boas universidades, com bons empregos, bem casados e…sem filhos.

Os pais deles pediam:

– Ok, agora chega de tanto cuidado, queremos netos!

Mas os irmãos estavam munidos de muitas informações sobre o que é ter uma família. Tinham consciência da responsabilidade que é gerar uma vida. Todos ficaram anos planejando os filhos, em busca de mais preparo emocional e financeiro. Haviam aprendido com seus pais que o primeiro pensamento no momento da descoberta de um gravidez deve ser sempre:

– Que alegria!

E nunca:

– Que merda!

Algo que só é possível quando a criança é planejada e muito desejada. Loucos de vontade de ser avós, os pais dos irmãos já estavam quase arrependidos de tudo o que haviam ensinado sobre responsabilidade e controle de natalidade:

– Chega, queremos netos!

O pioneiro foi o caçula, seguido de perto pelos outros.  A menina adorava os sobrinhos, mas ainda não sentia-se preparada. Ela já havia encontrado o amor da sua vida  e juntos eles haviam decidido que um dia teriam um filho. Mas protelavam, sempre à espera do melhor momento, que não chegava nunca.  A cada dia surgia uma nova razão para adiarem a chegada do filho: precisavam de um carro melhor, um dos dois havia ficado desempregado, uma doença que exigia cirurgia e tratamento, a pós-graduação precisava ser concluída, a possibilidade de mudança de cidade no ano seguinte.

No fundo ela sabia que o problema era outro: medo de não ser uma boa mãe, de não estar pronta para assumir a responsabilidade de ter em suas mãos a vida de outra pessoa, o futuro de alguém, o poder de moldar um destino. Receio de não ser capaz de lidar com a intensidade do amor incondicional que invadiria a sua vida e a de seu companheiro. Ela tinha os melhores pais do mundo e sonhava em ser capaz de oferecer aquilo a seu filho também. E se falhasse?

O tempo foi passando, ela tinha agora 34 anos. Teria ficado tarde? Seria melhor deixar para lá?

Perguntas respondidas numa noite de verão. Haviam acabado de completar seis anos de casados, estavam deitados lado a lado, num daqueles momentos de total cumplicidade e ternura dos amores sãos. Ele falou:

– Vamos ter um filho.

Ela queria, mas…

– …as prestações da casa…e essa  crise mundial…tem uma ameaça de demissão no ar…e eu já tenho 34 anos..não ficou tarde demais?

Ele olhou bem para ela e não precisou usar palavras. No olhar dele estavam descritas todas as razões. Era a hora de calar a mente e deixar o coração falar. Havia amor, maturidade, união e uma casa espaçosa com um bom quintal. Vai dar certo! Seremos capazes! – eles disseram um ao outro, sem precisar abrir a boca.

E então veio o melhor da festa:  fazer o filho. Duas pessoas apaixonadas e concentradas numa missão cheia de amor. O melhor sexo da vida deles. Estavam adorando a perspectiva de passar algum tempo naquele divertido e prazeroso prTestePositivoojeto:

– Ah, nós vamos ficar alguns meses nisso, tentando fazer esse filho. Certeza!

Apenas duas semanas e meia depois ela descobriu que estava grávida e contou ao marido:

– Que alegria! – exclamaram juntos.

E viveram felizes para sempre. Nos meses seguintes a alegria foi  interrompida várias algumas vezes por crises de angústia, choro, gases, incertezas, insônia, cãimbras.

E jamais será possível escrever nesta história o tradicional “FIM” dos contos que começam com “ERA UMA VEZ..”, pois a maternidade/paternidade é uma aventura sem final, é um aprendizado que começa ainda quando os futuros papais são apenas meninas e meninos.

19 comentários 11/09/2009

Mexe que é bom!

bebequietinhoAmo quando o bebê mexe, mas ao mesmo tempo sinto uma certa aflição. E nem é por que dói às vezes, pois com isso já acostumei. O que me aflige é a falta de controle sobre alguma coisa que acontece dentro do meu corpo. Admitir isso deve ser contra as Leis das Gestantes, pois outro dia deixei escapar um comentário sobre a minha aflição e  imediatamente senti olhares de censura lançados na minha direção. Mas é a mais pura verdade: é bom, mas me dá aflição. Nem sempre, só quando as sacudidelas acontecem em momentos totalmente inconvenientes inesperados. Como na semana passada, no meio de uma reunião de trabalho, enquanto eu tentava enganar convencer todos os presentes (e  a mim mesma) de que aquela mulher ali em pé não era apenas um par de peitos enormes e uma barriga maior ainda, morrendo de vontade de fazer xixi, arrancar os sapatos e esticar as pernas inchadas. Aquela era uma workaholic profissional dedicada, que não deixava a dor nas costas e as dúvidas sobre as conchas de silicone invadirem seu mundinho corporativo.

Tudo ía muito bem e as pessoas na sala pareciam até mesmo ter esquecido que provavelmente dali a três ou quatro meses não poderiam mais contar com a minha presença (a não ser que fosse pra falar de seios doloridos e fraldas descartáveis). Então bem no meio da minha melhor frase de efeito acompanhada de um olhar confiante (emoldurado por rímel na medida certa) o que aconteceu? O bebê deu um salto mortal triplo em direção à minha bexiga urinária. Ahá! Tente continuar a frase no mesmo tom de voz e não levar as mãos até o ponto atingido. Desafio supremo: tente ignorar a vontade aguda e imediata de correr para o banheiro com uma sirene ligada em cima da sua cabeça gritando “xixiiiiiiiiiiiiiiiiii, saiam da frente….xixiiiii”.

Levei um pequeno susto. Tinha esquecido por alguns segundos de que não estava sozinha na minha encenação reunião. De repente veio aquela “ola” de arquibancada de estádio de futebol lotado (como é que esse menino consegue fazer tantas oscilações com apenas duas mãozinhas e dois pezinhos??)  lá das profundezas das minhas tripas para me lembrar de que meu corpo já não é todo meu.

Foi assim também quando minha sogra mostrou um vestido que havia costurado para mim e menti descaradamente (tudo pelo casamento):

– Que lindo! Amei! – enquanto me esforçava para que o conjunto expressão facial + voz convencessem a todos os presentes de que eu realmente estava agradecida por receber aquela capa colorida de butijão de gás de presente.

Mas assim que terminei a frase, o bebê deu duas piruetas que me desconcertaram e derrubaram minha máscara de ternura. Perdi a concentração no papel de nora-agradecida e meus olhos denunciaram meu verdadeiro pensamento: “que merda é essa? não vou usar nem a pau”. O bebê não gosta de mentiras. Nem as “sociais”.

É quase assim como quando não estamos sozinhos e um pum (daqueles que fazem barulho) escapa, sem mandar aviso. É uma espécie de motim dentro do seu corpo, que produz sonse movimentos que você não controla. Como vomitar, tropeçar, ter dor de cabeça, lembrar de alguém ou algo que você gostaria de poder deletar para sempre da sua memória.

A grande diferença é que os movimentos do bebê têm um lado bom. Bom, não. Um lado maravilhoso. Os chutes e socos funcionam como uma espécie de código entre mãe e filho, como sinais (doloridos) de fumaça que o pequeno habitante do útero envia diariamente para dizer que está tudo bem. São esses movimentos que tranquilizam a mamãe, ansiosa pela próxima ultrassonografia.

Por isso, acima de tudo, essa atividade é muito bem-vinda. Em alguns períodos do dia, a movimentação já é  até rotina. São momentos “pré-agendados” e nessas horas não sinto aflição alguma. Aproveito para interagir com meu filhote.  À noite, por exemplo, o bebê sempre realiza seu carnaval particular dentro do trio elétrico do útero. A festa del começa quando finalmente termina o meu dia de trabalho. Assim que encontro uma posição relativamente confortável com a ajuda de três travesseiros estrategicamente posicionados. No momento em que começo a pegar no sono, o foliãozinho passa a pular na cama elásica e rodopiar para todos os lados num festival das suas melhores acrobacias. Amo cada segundo de sua exibição e tenho vontade de aplaudi-lo.

No fim do dia, quando o papai chega do trabalho e conversa com ele. O bebê fica agitado ao ouvir aquela voz grossa e cheia de promessas de um mundo repleto de brincadeiras, meias jogadas pela casa, sorvetes no almoço e tardes de futebol (estou deixando pra contar a verdade quando ele estiver aqui fora).

Cedinho, logo depois do café da manhã, ele dá soquinhos doloridos enquanto lavo o espremedor de laranjas e arrumo a cama.

Tem sido assim há pelo menos dois meses. Sem falha. Sem quebra de contrato. Até que um dia o bebê decidiu fazer greve.

bebe_shhhSe foi praga daquelas que seguem o Manual de Boa Conduta das Gestantes Modelos; se o bebê decidiu dar uma lição em mim após ouvir a palavra “aflição”;  ou se era dia de limpar a cama elástica, eu não sei. O pequeno habitante ficou em silêncio durante horas, para minha agonia. Depois do habitual copo de suco de laranja no café da manhã: nenhuma mexida. Almoço com direito a um cochilo e nada de soquinhos ou pulinhos. Senti muita falta dos movimentos e fiquei preocupada. Já no final da tarde, quando tudo continuava quieto, apelei para a estratégia de tomar um copo de vitamina de frutas e deitar logo em seguida, de barriga pra cima. Num dia normal, o bebê teria promovido uma verdadeira rave uterina depois de saborear aquele coquetel calórico de sabores variados. Mas nada aconteceu. Nenhum soquinho ou pulinho. Nem soluço. Silêncio total. Liguei para minha médica e ela estava numa cirurgia. Deixei recado, aflita. Ahá! Agora assim vai descobrir o real significado da palavra aflição, hein? Castigo!

Liguei para minha mãe e ela disse que isso é normal, que o bebê pode passar um dia mais calmo. Que talvez ele estivesse cansado das estrepulias dos dias anteriores e havia resolvido tirar o dia pra dormir. Perguntou se eu tinha comido ou feito algo diferente. Eu disse que não. Ela tentou me tranquilizar, mas não conseguiu. Conversei com o bebê, pedi a ele que se manifestasse, mandasse um torpedinho, um e-mail, uma tuítada que fosse. Nada. Silêncio.

Resolvi tentar novamente a estratégia que sempre havia funcionado: fiz uma rápida e intensa caminhada, tomei banho, comi duas bananas e deitei de novo. Movimentação + alimento + repouso costumava ser uma combinação perfeita para fazer o bebê ficar agitado. Finalmente funcionou. No início da noite, deitada no sofá, olhos fixos na barriga, senti um chute, seguido de uma sessão completa de alongamento de bracinhos e perninhas. Curti cada um, enquanto as lágrimas desciam sem controle.

Logo em seguida o telefone tocou. Era a médica, atendi chorando e expliquei BebePositivoo que havia acontecido e que agora estava tudo bem. Ela disse que era normal não sentir o bebê durante algumas horas, mas que se o período ultrapassasse o prazo de um dia eu deveria procurá-la imediatamente. Ela pediu para eu continuar monitorando a movimentação dentro do útero. Se meu filho ficasse muito tempo quieto de novo, eu deveria telefonar para ela outra vez. Mas depois daquela pausa de quase um dia nas atividades, o pequeno hóspede nunca mais ficou quieto por mais de duas ou três horas e voltou à rotina de festas e exercícios. Mexe, amor, mexe que é bom! Mesmo quando dá aflição, é bom!!

29 comentários 08/09/2009

Ministério da saúde da gestante adverte: não grite com o potinho

Na montanha-russa de sensações da gravidez há umas descidas apavorantes, que parecem não ter fim. Mas eu achava que o percurso recheado de ladeiras havia terminado no primeiro trimestre. Não. Enquanto a bagunça dos hormônios durar, certamente haverá razões para me esvair em lágrimas. Hora seguidas, com pausas de alguns segundos para assoar o nariz e respirar. Litros de lágrimas derramados mesmo quando ninguém consegue enxergar qual é a razão para tanto choro e nem eu mesma sei apontar algum motivo concreto. Por que

peito e bundas imensas; coxas alargadas; incapacidade de dormir uma noite inteira sem acordar para fazer xixi; falta de sexo; não alcançar os dedos dos pés; pernas inchadas; flatulência; manchas no rosto; preocupação constante com a saúde e o desenvolvimento do bebê; nove quilos a mais para carregar; medo do parto; pavor de hospital; ansiedade pela chegada do bebê; insegurança em relação ao desempenho como mãe; medo de não poder /saber amamentar; pavor de sentir dor; perda do equilíbrio; ameaça de gripe suína; cãimbras; gravidez com fortes restrições orçamentárias; prisão de ventre; inabilidade para fazer tudo o que fazia antes com a mesma rapidez e eficiência; dores nas costas; entre outros…

não são exatamente motivos para uma pessoa chorar. São?

Certamente foi o grito com o potinho que provocou esse derramamento infindável de lágrimas. Por que quando ele pergunta O que foi? e eu respondo sinceramente: Não sei, não é nada, é tudo, ele não acredita e não entende:

– Mas você ainda está assim por que eu gritei com o potinho? Amor…para de chorar.

E quando alguém diz pra eu parar de chorar, por que é que eu choro mais ainda?

Melhor seria conseguir parar de chorar e dizer algo como:

– É, eu fiquei com dó do potinho.

Pelo menos faria algum sentido. Haveria uma razão visível. A verdade é que tinha sido um dia muito feliz. Havia conversado com amigas reais e virtuais, tinha tomado um bom café da manhã. Não estava mais tão frio e o sol aparecera para finalmente secar a roupa do varal. Meu bebê havia recebido uma dúzia de roupas novas e lindas da vovó e eu estava animada com a festa de aniversário do meu irmão. Mas uma nuvenzinha havia me acompanhado o dia todo, tentando nublar o dia ensolarado. Primeiro fingi que não vi. Depois balancei a cabeça e liguei o ventilador, tentando dissipá-la. Ainda estava um pouco impressionada com o relato de uma amiga que teve um parto meio sofrido e difícil. Estava aliviada por saber que ela e o bebê já estavam bem, em casa, em segurança, mas de alguma forma aquela história havia deixado uma manchinha de tristeza na minha alma branquinha de gestante feliz de propaganda do Omo Dupla Ação.

E a tal nuvenzinha foi crescendo e se aproximando cada vez mais. Na TV, uma notícia sobre um recém-nascido jogado no lixo e uma grávida que morreu de gripe suína. Outra amiga que teve nenê há três meses liga e reclama pelo telefone que o marido não está ajudando em nada, que ela está enlouquecendo, que o bebê ficou doente, não havia leite suficiente, que ela não dorme direito há duas semanas. Entre os e-mails está a notícia de que o novo contrato de $erviço que eu esperava fechar esta semana não deu certo (e eu contava com a grana para comprar um berço novo, em vez de aceitar aquele móvel que já tem uns sete anos de uso e a a sogra cisma em oferecer duas vezes por semana).

Então no meio dessa ameaça de temporal, o marido chega para jantar. Me atrapalhei com o horário mais uma vez e nada está pronto. Ele disfarça, finge que está tudo bem, mas claro que ficou chateado. Fiquei muito mais que ele.

Quando foi que eu me tornei tão incapaz de administrar uma casa e organizar tarefas tão simples quanto cozinhar uma panela de arroz e grelhar um bife?

Tenho vontade de sentar e chorar, mas seguro. Me sinto feia, gorda e não vou ganhar dinheiro nenhum este mês para ajudar com as contas. Será que nem a droga do jantar eu posso servir no horário para colaborar com quem estava ralando lá fora o dia todo para que eu pudesse ter minha gestação em paz? A nuvem se aproxima.

O jeito carinhoso dele me deixa ainda mais triste. Eu não faço o jantar e ainda ganho beijo. Eu sou péssima. A nuvem cresce.

E ele está com cara de quem enfrentou um dia péssimo no trabalho. Mas não fala nada, não reclama. A barreira de segurança para manter a grávida fora da rede de notícias sobre o ambiente profissional carregado de nervosismo e cobranças foi erguida e ele não ousa atravessá-la, para o bem da mamãe e do bebê. Muito protetor, muito lindo. Mas nem sendo assim tão cuidadoso, encontra o jantar pronto na hora certa. Eu sou péssima. A nuvem está quase tão gorda quanto eu.

Ele disfarça, diz que tudo bem, que vai comer qualquer outra coisa e apanha um potinho de amendoim no armário.  O potinho cai no chão e os amendoins vão parar em todos os cantos da cozinha: embaixo da geladeira, do fogão, da mesa.

– CARALHO, QUE PORRA DE POTINHO MALDITO!!! OLHA SÓ QUE SUJEIRA!! QUE MERDA!!!

A tempestade cai sobre minha cabeça. Começo a chorar e não paro mais. Sei que os gritos não são comigo. Sei que os palavrões não são para mim. Em qualquer outra ocasião eu teria abraçado esse homem tão maravilhoso e dito: “ei, o que há, se abre comigo, o que tá acontecendo?”

Por que eu sei que se um frágil potinho consegue provocar tamanha ira,  alguma coisa está errada. Talvez no trabalho. Talvez na conta bancária. Talvez sejam os mesmos motivos que têm me feito perder o sono nos últimos meses: será que vamos dar conta de cuidar direito deste bebê? Estamos preparados? Teremos dinheiro suficiente? Seremos bons pais? Algum dia faremos sexo selvagem como antes?

Mas a barreira de proteção em volta da gestante sensível não permite que um homem tão forte tenha dúvidas ou medos. Muito menos problemas no trabalho ou com a conta bancária. Ele nunca diz nada, não reclama, não procura minha ajuda. Então acaba sobrando para o potinho. Mas os gritos desencadeiam uma sequência de raios e trovoadas e o temporal desaba.

– O que foi? Por que tá chorando?

– Não sei. Não é nada, é tudo. Assustei.

– Amor, é só um potinho…não precisa chorar.

E a enxurrada me carrega ladeira abaixo. Lavar o rosto e pensar em outra coisa ajuda por algumas horas e funciona como uma rolha para bloquear a torneira de lágrimas. Mas assim que ele adormece ao meu lado, convencido de que o ataque de choro passou, levanto e me arrasto até o sofá.  Choro até cochilar, então acordo e ainda estou perdida no meio daquela nuvem escura. Sinto o bebê mexer e digo a ele que está tudo bem. Mas ao escutar minha voz tremida começo a chorar de novo. Lembro do dia em que conheci aquele homem lindo, o começo do namoro, o casamento, a decisão de ter um filho e logo me vem a imagem do parto..snif..a ameaça da gripe suína..chuif… medo de morrer no hospital,…snif.. de não saber amamentar..chuif..de nunca mais emagrecer… de não ser uma boa mãe…chuif..snif… de não ter dinheiro para pagar uma boa escola…essa porcaria de sistema público de ensino…e a gente paga tantos impostos…será que vai faltar dinheiro este mês?…snif…chuif…eu perdi aquele contrato…li hoje sobre o preço das vacinas…não queria aquele berço velho…será que meu bebê vai ser saudável?…buááááááááááááá

Não sei se foi a dificuldade para respirar enquanto chorava ou se foi o desconforto do sofá: logo estou cheia de ondas de gases que circulam pelo meu corpo e não encontram a saída. São como grandes agulhas que penetram minhas entranhas. A cada movimento do bebê a situação piora. Abro a porta e vou caminhar no quintal, no meio da madrugada, mão acariciando a barriga.  A luz da varanda projeta minha imagem gorda e descabelada na parede. Sinto os nós do tecido da calcinha de algodão extra G por baixo da camisola imensa e confortável. Um arroto. Uma lágrima. Outro arroto. Muitas lágrimas. A noite fria, o silêncio (menos na hora dos arrotos, é claro), a solidão. Como foi que eu vim parar aqui????? Buáááááááááá

Ah é…foi culpa do potinho.

34 comentários 26/08/2009

Da série: sem medo de perguntar

interrogatorioJá ouviu falar na fase dos “porquês”?  Quem convive com crianças de 3 a 6 anos sabe como é. Regredi. Estou nesta fase. Sou uma grávida perguntadeira do tipo cara-de-pau. Não tenho medo de fazer pergunta imbecil, nem de resposta atravessada ou pagação de mico. Expressões faciais que denotam sentimentos como “ai, que burrice” ou “não acredito que você perguntou isso” também não me incomodam. Informação é um bem muito precioso, principalmente para grávidas de primeira viagem. A pergunta mais comum no repertório de indagações de uma gestante é dita quase sempre em tom de aflição:

– “PelamordeDeusmoço: Onde é o banheiro???!”

Mas a criatividade da gestante não tem limites. Principalmente se é a primeira gravidez. Comprei livros, revistas, manuais. Visito diariamente blogs e sites especializados. Mas nunca estou saciada:  a busca por informações não tem fim. É viciante. Quanto mais pergunto, mais quero perguntar. A fase infantil dos “porquês” faz muito sentido para mim agora. Sou solidária às crianças curiosas. No meu caso, a curiosidade vai além das questões sobre gravidez, parto e puerpério. O bebê é a maior fonte de dúvidas: como amamentá-lo, como fazê-lo dormir, qual a melhor fralda, escolinha ou babá? A criança nem nasceu e a mãe já está lá, parindo dúvidas diariamente. Sei que a maior parte das respostas que encontro agora acabarão nem sendo úteis na hora em que o bebê finalmente chegar. Mas mesmo assim me abasteço com elas, na esperança de me sentir menos ansiosa e mais confiante.

A obstetra é minha maior vítima. Durante quatro semanas anoto diariamente as questões que vão aparecendo na minha criativa cabeça grávida. Quando finalmente chega o dia da consulta mensal, a lista é tão grande que assume ares de interrogatório policial. Sabe aquela cena clássica em um galpão todo escuro, com a vítima amarrada debaixo de uma luz fortíssima e sendo metralhada com perguntas? É daquele jeito. Me posiciono na cadeira, abro o caderninho e disparo minhas dúvidas contra a médica.

Didática, paciente e certamente se divertindo muito, a obstetra responde a tudo tranquilamente, como se lá fora não houvesse uma sala de espera lotada de barrigudas, cada uma delas também munida de uma lista recheada de dúvidas. Sempre saio do consultório aliviada por ter desvendado mais alguns mistérios da gestação. Mas como uma pergunta leva a outra, ainda dentro da clínica me ocorre mais uma dúvida (ou duas). Aproveito que o caderninho ainda está na minha mão, vasculho a bolsa em busca de uma caneta e já inicio ali mesmo a lista de perguntas para a próxima consulta.

14 comentários 25/08/2009

Doce exame amargo

A balança do consultório da minha obstetra é uma dedo-duro. Na semana emgravidabalanca4 que completei 22 semanas de gestação, a maquininha linguaruda me denunciou:  engordei 3 quilos em um mês.  Levei um susto.  A médica tratou de me assustar mais: “o que está acontecendo com você, ganho de peso rapidamente, muita sede e pernas inchadas, podem ser sintomas de diabetes gestacional“.

Recomendou que eu fizesse com urgência um exame de sangue chamado Curva Glicêmica. Já tinha ouvido falar que diabetes gestacional pode colocar a vida do bebê em risco e prejudicar a hora do parto. Comecei a chorar. “A culpa é toda minha, como doce demais, massas demais, não faço caminhadas como deveria…” Didática e paciente como sempre, a médica explicou que não era bem assim, que poderia ser genético ou simplesmente uma reação do meu organismo às mudanças hormonais. Ela falou que a grande quantidade de hormônios produzidos pela placenta gera resistência à ação da insulina no organismo da gestante. Em algumas grávidas, essa resistência é muito alta e aí ocorre o diabetes gestacional, que costuma aparecer por volta da vigésima quarta semana de gravidez.  Por isso mesmo quando não há sintomas, o médico pode pedir um exame para avaliar as taxas de glicose no oganismo da gestante.
O diabetes gestacional pode ocasionar várias complicações para o bebê, como peso elevado ao nascer, e para a mãe, que pode sofrer com pressão alta, aumento do risco de cesárea, eclampsia e desenvolvimento de diabetes após o parto. Quanto antes for detectado o problema, maiores as chances de não haver riscos para o bebê, nem para a mamãe. Se constatada a doença, a primeira providência é modificar a dieta alimentar da mãe.

Fui para a casa chateada. Não conseguia pensar em outra coisa. Estava com fome, mas sentia medo de comer alguma coisa que não fizesse bem para o bebê. É, na minha cabeça já estava tudo resolvido: eu tinha diabetes, teria de controlar a alimentação, meu mundo grávido e docinho havia caído.

Como sempre, a expectativa pelo exame virou um drama Almodovariano na minha cabeça. Sofrer por antecipação é praticamente um hobby para mim. Não que eu goste de ser assim, mas é uma daquelas características natas com as quais a gente é obrigada a conviver a vida toda, por que não há experiência de vida, terapia, nem Floral de Bach que resolva.

Todo mundo dizia que eu não tinha nada. Meu marido, minha mãe…eram unânimes: você não tem nada, você vai ver, esse exame não vai dar em nada. A certeza deles me deixava mais triste ainda. “Ninguém liga pra mim, estou doente e eles não se importam” (ai, TV Globo, olha o talento dramático que vocês estão perdendo aqui).

Eu falava do meu excesso de peso e todos diziam que não parecia que eu havia engordado. “Você está ótima! Não engordou muito, não! “ – ouvia dos parentes, amigos, vizinhos e até desconhecidos na fila do supermercado.

Nos três dias que antecederam o exame, passei a me alimentar melhor ainda do que antes. Cortei o excesso de carboidrato, eliminei totalmente os doces da dieta, comi mais frutas, grãos e legumes. O consumo de arroz integral – que era esporádico – passou a ser obrigatório. Fui uma grávida modelo naquele período. Sou fã de doces e ficar sem minha geleia preferida no café da manhã ou a fatia de bolo do lanche da tarde me deixou meio chateada. Mas eu só pensava na saúde do meu filho.

Grávida mascarada

michaeljacksonmascaraMeu marido nem queria que eu fosse fazer o exame. Ele estava com medo mesmo era de eu pegar alguma “doença de verdade” (era o que ele dizia) na sala de espera do laboratório de análises clínicas, um lugar que vive apinhado de gente com suspeita de todo tipo de moléstia (inclusive a famigerada Gripe A Suína).  A obstetra também alertou sobre esse perigo e orientou para que eu usasse máscara. Me senti meio Michael Jackson, pagando um mico danado com aquela máscara, mas resolvi não arriscar. Além disso, carreguei comigo um tubo de álcool gel para o laboratório na hora do exame.

Um doce exame

Jejum de oito horas para uma grávida esfomeada como eu já é um sacrifício. BebidinhadocMas o que veio depois foi ainda pior. Com uma agulha bem fininha, a enfermeira tirou um tubinho de sangue do meu braço direito, fez umas anotações e pediu que eu tomasse dois copos bem cheios de uma substância que era açúcar puro. Parecia um refresco desses em em pó, de saquinho, que geralmente é preparado na proporção de UM saquinho para cada DOIS litros de água. No exame a proporção deve ser algo como DEZ saquinhos para cada 200 ml de água. Pensa numa coisa doce. Agora pensa nessa coisa doce mergulhada num pacote de açúcar refinado. Tá quase perto…

– Não pode vomitar, hein? – disse a enfermeira.

Ao ouvir isso, quase não consegui tomar o segundo copinho, fiquei imaginando quantas grávidas haviam vomitado ali. Devia ser normal botar aquela calda açúcarada pra fora. Não vomitei até agora esta gravidez inteira, não é agora que vão me derrubar, né? Respirei fundo, fechei os olhos e virei de uma vez o segundo copinho, sentindo o açúcar bater no estômago vazio. A sensação foi de que minha boca inteirinha estava melada de tanto doce. Senti vontade de vomitar, ergui a cabeça e pensei no bebê. Pedi água, mas a enfermeira deu apenas um golinho, servido num copinho daqueles pequenos (de café) e avisou que eu não poderia beber água até o final do exame.

Olhei para ela atônita: – Tá brincando, né?

E quanto tempo mais ou menos vai durar este exame? – perguntou meu marido.

– Mais três horas. – respondeu a enfermeira e, em seguida, espetou meu outro braço para coletar mais uma amostra de sangue.

A partir daí, de tempos em tempos entrava alguém na sala para me espetar de novo. Além da sede, eu sentia muita vontade de fazer xixi. Quando a segunda enfermeira apareceu, perguntei se podia ir ao banheiro e ela disse que sim. Alívio! Cada ida ao banheiro era acompanhada por um ritual digno de quem sofre de TOC:  tudo para não encostar na maçaneta da porta, na torneira da pia, na tampa do vaso sanitário. E na volta para a sala de exame eu esfregava as mãos e os pulsos com álcool gel, apavorada. Tudo sem tirar a máscara.  Gravidez em tempos de gripe é uma paranóia.

Meu bebê, que acha que meu útero é trio elétrico da Bahia, começou a pular mais ainda (onde é que esse guri arranjou uma cama elástica???).  A enfermeira falou que as gestantes sempre relatavam o aumento da movimentação do bebê depois que ingeriam a substância super doce. E ainda tem gente que fala que o que a mãe come não influencia, nem afeta o bebê. O jejum e o açúcar derrubaram um pouco minha pressão, por isso fiquei deitada até o final do exame, observando a festa que acontecia dentro da minha barriga. Meu marido ficou sentadinho ao meu lado, com a mão sobre o meu ventre,  encantado com a coreografia saltitante do bebê, enquanto eu me controlava para não pular sobre o bebedouro no corredor. Sede…sede…sede.

Três novas espetadas nos braços depois e finalmente fui liberada para ir pra casa. Bebi quase um litro de água de uma vez. Depois, só pensava em comer alimentos salgados. O exame tirou minha vontade de doces durante uns dois dias. Via um doce e sentia um pouco de ânsia ao lembrar da “limonada” do exame. Fiquei com um pique danado o resto da manhã, plugada na tomada. Mas na hora do almoço alguém puxou o fio e eu desconectei. Uma moleza profunda tomou conta de mim. Parecia que estava dopada. Passei a tarde deitada, sonolenta e fadigada, com uma sede que não acabava nunca.

– Saia açúcar. Saia deste corpo que não te pertence!

Doce resultado

Passei o dia inteiro ansiosa para saber o resultado do exame, que foi VivaPassamosNoExamepublicado no site do laboratório naquela mesma noite. Aos meus olhos leigos, aqueles números pareciam muito bons. Mas não sou médica para interpretar exames de sangue e não sosseguei enquanto a obstetra não viu o resultado no dia seguinte e bateu o martelo: “está tudo bem”. Passei no exame com louvor. Meu organismo está metabolizando a glicose direitinho, sem faltar nenhum dia, inclusive feriados.

Fiquei tão feliz e aliviada. Queria abraçar alguém e nessa hora só me ocorria a imagem de uma pessoa: a dona da sorveteria do meu bairro. Meu filho está bem, eu estou bem e Kibon que eu posso comer doce sem restrições.

Enquanto meu marido, minha mãe e até o papagaio do vizinho diziam em coro: “viu, a gente falou que não era nada, que estava tudo bem”, eu só pensava em comemorar o resultado com um belo pote de sorvete, acompanhado de uma generosa fatia de bolo de chocolate com calda quente.

Leia mais sobre Diabetes Gestacional

32 comentários 23/08/2009

Isso é bobagem…

malas_sem_rodinhas

Malas sem rodinhas

Almoço de domingo. Grávida e sua mãe conversam sentadas na varanda, longe do tumulto dos adultos e da correria das crianças. Falam de tudo um pouco e acabam caindo no assunto do momento entre as duas: gravidez.

Filha: “Ai, mãe, tô engordando demais, você engordou assim nas gravidezes?”

Mãe: “Não engordei muito, não. Mas isso é bobagem…não se preocupe, você emagrece rapidinho depois do parto, principalmente se amamentar. Some tudo!”

Filha: “Ai, mãe, tô passando potes de creme e bebendo muita água que nem todo mundo ensinou, mas apareceram umas estrias logo acima do bumbum”

Mãe: “Não se importe com isso, amor…isso é bobagem…depois some tudo!”

Filha: “Ai, mãe, será que vou dar conta de amamentar? Quero tanto…Mas tenho medo de não saber fazer direito”

Mãe: “Filha, amor…isso é bobagem, você logo pega o jeito, é só fazer com amor e perseverança. Esse medo some…você vai ver..depois do parto, some tudo!”

Um dos primos se aproxima das duas, conversa um pouco e logo faz um trocadilho idiota com o nome escolhido para o bebê. Depois que ele se afasta, a mãe comenta:

“Isso é bobagem. Mas infelizmente, não some depois do parto” – (suspiro) – “Gente mala pra dar opinião, fazer piadinha e dizer asneira pra você sempre vai ter. Esse tipo de problema não some no final da gravidez”.

29 comentários 18/08/2009

Linda estrada sem fim

estradasemfimQuase nunca chego ao fim. É difícil terminar o que comecei. Foi assim com o curso de inglês e o scrapbook sobre a família. Perdi as contas de quantas vezes dei início à cruzada da Carteira Nacional de Habilitação: foi uma novela até finalmente chegar ao final do processo e conseguir meu direito de fazer barbeiragens dirigir. Aprender a costurar, Alemão, a ler mão, computação, artesanato,  piano, violão: habilidades que nunca desenvolvi completamente, abandonadas no altar. A Pós-Graduação também ficou pela metade.

E a organização das zilhares de fotos e vídeos armazenados no computador está nos planos há sete anos. A arrumação do closet que eu comecei há dois meses foi interrompida horas depois do início, quando encontrei uma caixinha cheia de bilhetinhos da época em que namorava meu marido. Passei horas lendo e me divertindo com aquelas bobagens românticas e quando vi já era noite. Deixei pra continuar a faxina no dia seguinte, mas nunca mais encontrei tempo e agora já está tudo bagunçado de novo.

Avalio o passado e constato que nunca completei um álbum de figurinhas.

Poucas coisas até hoje me proporcionaram o prazer de saber o que é chegar ao final do caminho: me formar em uma boa universidade foi uma delas. Comecei e terminei o curso de Graduação sem nunca ter pensado em abandoná-lo. (Bom..talvez uma vez ou duas, mas universidade pública enfrenta muitas greves e eu tinha só 17 anos!)  O meu trabalho também tem esse raro poder de me conduzir até o final. Quando estou envolvida com um projeto profissional,  tenho entusiasmo do começo ao fim, mesmo que o trabalho exija minha dedicação durante anos. (Pensando bem..já abandonei chefes saudosos ao encontrar um desafio maior à minha frente).

Nunca me senti presa a nada.

Meu casamento também tem sido um projeto a longo prazo, ao contrário dos namoros relâmpagos que tive antes. Mas confesso que no começo, ao me deparar com as meias jogadas pela sala e a sogra sentada no sofá dando palpites, pensei encerrar o compromisso antes do prazo (o prazo vocês sabem, está decretado no contrato, naquela cláusula do “até que a morte os separe”), mas o amor imenso que sinto (e o preço que os cartórios cobram pra consumar o divórcio) me fez voltar atrás.

Ser mãe é o primeiro projeto fora do âmbito profissional que vou levar até o final. E esse final é: nunca! Me dei conta disso ontem, durante o banho, quando olhei para a barriga (a minha, claro!)  e senti um princípio de pânico e, em seguida, uma imensa gratidão,  ao perceber que desta vez não dá para desistir no meio do caminho. Não tem volta, não tem fim. Filho é para sempre. Aliás, é para além de sempre. Eterno é pouco. Infinito é ínfimo. Filho é muito mais e nem inventaram ainda uma unidade de medida adequada para mensurar essa relação.

Mães e pais iludidos sobre seus sentimentos acabam descobrindo tarde demais que é impossível interromper esse projeto. Abortar, abandonar o bebê em algum lugar, entregá-lo para adoção, rejeitá-lo, tratá-lo mal, expulsar o filho adolescente de casa, fingir que ele não existe, nada disso vai eliminar da vida de uma pessoa o fato de que ela é mãe ou pai. É um vínculo mais forte que o aço, mais resistente que a morte. Não há distância que possa destrui-lo, não há palavra que consiga sufocá-lo. Ainda que os filhos partam, mesmo que os anos passem. Até quando o amor parece ter desaparecido ou nunca existido. A experiência de ser pai e mãe permanece, seja na memória ou no coração.

Saí do banho renovada e murmurei agradecida para a minha barriga: Obrigada, meu filho, por mudar esse hábito que eu não gostava em mim, por me ensinar a ir até o final, a não desistir. Por fazer de mim uma pessoa melhor, de quem eu gosto muito mais agora. Por me fazer tão feliz e por ser eternamente parte de mim.

30 comentários 14/08/2009

Filho da p…

gravidapezinho

Que jogue a primeira fralda suja quem nunca falou um palavrão. Não sou do tipo que tem palavras sujas na ponta da língua, mas de vez em quando escapa um termo vulgar. Depois que casei adquiri um repertório mais vasto graças ao desempenho do meu marido nesse setor, principalmente em dias de futebol na tv e faxina na casa. Percebi que fui  “contaminada” por ele, que deixa escapar um “caralho” toda vez que derruba alguma coisa ou tropeça. Claro que banco a censora-moralista-puritana nesses momentos:  sempre olho feio e reclamo “tá com o caralho na boca hoje, hein, amor?” Mas logo em seguida deixo escapar um palavrão também. Marido olha divertido para mim e balança a cabeça: “oh, não, os céus vão desabar, a santa falou um palavrão!”

Falei o primeiro palavrão para o meu filho. Ele já deve ter ouvido outras palavras feias, pronunciadas por mim e pelo pai dele. Claro que tenho tentado me policiar e também estou pegando mais no pé do meu marido. Sei que temos de dar o bom exemplo e precisamos começar a treinar desde já, antes do bebê nascer. Só que quando percebi, já tinha saído. Em alto e bom som. Não duvido nada que tenha atravessado todas as camadas de pele e líquidos e chegado aos ouvidos do filhote, lá dentro do útero. Mas o pior de tudo é que dessa vez o palavrão foi disparado em direção ao bebê.

Chamem o Conselho Tutelar que eu sou a pior mãe do mundo!!

Mas foi ele quem provocou. Estava distraída, quase pegando no sono, quando senti um chute (ou empurrão, nunca sei) muito forte na parte mais baixa do ventre. Não sei se foi a força do bebê ou se ele “acertou” algum lugar mais sensível dentro de mim. Sei que me pegou de surpresa e doeu. Foi o primeiro movimento do bebê que provocou dor. Claro que não foi uma dor alucinante e insuportável. Senti uma dorzinha um pouco maior do que se tivesse levado um beliscão.Acho que o problema maior foi o susto. Estou acostumada com a movimentação graciosa do meu bailarino e não esperava uma agressão dessas. A resposta foi automática:

– Filho da puta! – deixei escapar.

Quase acrescentei um “vai chutar a sua mãe”, mas aí me dei conta do absurdo da situação. Me arrependi na mesma hora. Levei a mão até a boca, indignada com minha atitude. Ele chutou de novo, só que mais levemente.  A mão desceu da boca até o local do chute para fazer um carinho. Só então me dei conta de que estava ofendendo  a mim mesma. Afinal, a  mãe puta era eu. Havia acabado de cometer um auto-xingamento. Além de ensinar a xingar, ainda por cima eu ensinara meu filho a ME xingar. Sonho em ser uma puta mãe, mas sei que não sou uma mãe puta. Tarde demais, já havia dado sinal verde para o pequeno me ofender.

Respirei e pedi com jeitinho: “bebê, não chuta a mamãe assim não que dói, amorzinho“.  Se ele ouviu ou foi coincidência, eu não sei. Mas os movimentos ficaram mais suaves e depois ele ficou quietinho. Vai ver estava lá, na escuridão uterina, pensativo,  imaginando que tipo de mãe xinga o próprio filho assim, depois de ter levado um chutinho à toa. Ainda tentei bancar a boa mãe, ensinar alguma coisa que prestasse, dar um bom exemplo do que é ser uma pessoa educada. Por isso fiquei ali conversando com ele um pouquinho e expliquei ao bebê que o mínimo a fazer depois de uma grosseria dessas era pedir desculpa. “Desculpa, filhote, perdoa o palavrão. Foi feio dizer isso. E você não é filho da puta. Sua mãe é só uma boca-suja de merda mesmo...”

15 comentários 06/08/2009

Mico espinhudo

dmicoLá pelos idos da 16.a semana desta minha aventura gestacional quase paguei mais um mico grávido. Quem acompanha o blog sabe que passei um baita susto no final do primeiro trimestre (quem não acompanha pode ler o relato do pior dia da minha vida aqui). Depois do sangramento no finalzinho do primeiro trimestre, fiquei pisando em óvulos.  Normal, né? Grávida escaldada tem medo de água fria. Até hoje não me recuperei completamente daquele episódio. Toda vez que vou ao banheiro ou sinto alguma coisa diferente, tenho o hábito neurótico de examinar a calcinha em busca de marcas de sangue, enquanto rezo para não encontrar nenhuma.

Explicada assim a origem da minha paranóia, segue o causo do quase-mico: eis que por volta da 16.a semana de gravidez, durante minha habitual peregrinação noturna ao banheiro para fazer xixi pela enésima vez, vejo meu pesadelo tomar forma. Lá está uma pequena mancha de sangue no fundo da calcinha. Minúscula, mas me aterroriza como se fosse uma hemorragia mortal. Grito marido e juntos avaliamos a mancha. A conclpererecausão é passar um papel higiênico na área de lazer (alguns chamam de perseguida, xereca, perereca…enfim, vocês entenderam do que estou falando) pra ver se tem mais sangue. Nada.  Papel sai sequinho. Relaxamos, marido e eu, e ponho calcinha limpa para voltar a dormir. Em nova ida ao banheiro na mesma noite,  lá está, no fundo da calcinha, outra manchinha minúscula, quase invisível.

Abaixo o pescoço e tento avaliar minha área de lazer. ( Naquela época eu ainda enxergava o playground. Atualmente, já na 20.a semana de gestação, preciso de um espelhinho para fazer esse tipo de auditoria)  Vejo que o comecinho da área, antes da entrada-e-saída principal, está todo vermelho, inchado, esquisito (bom, esquisito já é, né? Pelo menos eu acho que o design dessa parte do corpo não é lá dos mais agradáveis, visualmente falando).

É fim de semana, madrugada, marido ronca dorme angelicalmente. Não sinto dor e além da pequena mancha não há mais nada que indique problema (corrimento ou cheiro forte). Decido que não há motivo para acordar a obstetra ou o marido. Corajosamente volto para a cama sem dividir a neura com ninguém.  Encafifada, não consigo dormir. Olho para o lado e sob a luz fraca que entra pela janela examino bem o homem ao meu lado. Será que essa irritação na área de lazer tem a ver com ele?  Afinal todos os usuários são responsáveis pela manutenção das áreas comuns da grávida. No nosso caso são três usuários: ele, eu (obviamente) e a minha obstetra, que adora enfiar aparelhos geladinhos ali embaixo, enquanto repete seu mantra: “Relaxa, querida, relaxa…”.

Desinfetada, higienizada, salve-salve, nem desconfio da doutora, é claro. O suspeito principal passa a ser o aparentemente inocente ser que dorme despreocupadamente ao lado.  Sim, confesso que naquela hora desconfiei do deolhopai do meu filho (quem nunca pensou coisas horríveis do marido que atire o primeiro pau-de-macarrão) e pensei:

Vai ver ele está com alguma coisa na área de lazer dele e passou para mim.

Logo em seguida bato a mão na minha testa, na tentativa de exterminar aquele pensamento injusto e irresponsável, como se fosse uma mosca barulhenta e nojenta.

– Tá louca, mulher? Esse homem te ama e venera essa barriga, ele jamais faria algo assim. Tá maluca?

Tô. Tô maluca. Hormônios, medo de sangrar de novo. Insônia. Mais seis meses sem cafeína. Sou uma doida barriguda e perigosa.

Quando amanhece, marido acorda e avisa que vai preparar o café da manhã. Corro até o banheiro e analiso novamente lá embaixo. A calcinha está limpa (ufa!), mas a área vermelha  do playground ganhou um novo ponto, um pouco maior que uma cabeça de alfinete, de cor branca-meio-amarelada. Demora alguns segundos até que eu entenda o que pode ser aquilo.

– Não é possível!

Envolvida por um misto de alívio e incredulidade, pego um espelho de mão, acendo a luminária no criado-mudo e sento na cama com as pernas abertas. Com a mão livre aperto a bolinha amarelada suavemente até ela explodir e a acne desaparecer. Dou uma gargalhada.  Marido entra no quarto e pergunta o que houve.

– Estou aliviada, amor. Sabe aquela irritação….? Sumiu, não tem mais nada”.

Ele pergunta se vou ligar para  a médica. Respondo que não, que pelo jeito foi só uma alergiazinha, já passou. Dá vontade de contar a verdade, mas engulo. Vergonha besta, né? Mas senti e não dividi aquelas acnes com ele. Enquanto tomo banho fico rindo daquilo tudo, imaginando se eu tivesse acordado marido e obstetra no meio da madrugada para descobrirmos todos juntos, provavelmente na emergência da Clínica Obstétrica,  que a manchinha de sangue na calcinha havia sido produzida por uma ou duas acnes purulentas que haviam ‘estourado’ enquanto eu dormia. Haja banana pra tanto mico!

Leia mais: Acne é um sintoma comum na gravidez.

13 comentários 04/08/2009

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