Posts filed under: ‘Histórias de grávida‘




Sapatão de cristal

Observo com aflição e pesar aqueles que outrora foram chamados de pés e agora não passam de dois montes deformados lá embaixo, sustentando os quase 20 quilos a mais que ganhei na gestação.  Quando acordo eles já estão assim. Verdadeiras aberrações da anatomia grávida. Se está calor (e está sempre calor nesta Terra avacalhada pelo bicho-homem) ficam ainda em pior estado. Os tornozelos se fundiram à massa inchada dos pés e desapareceram sem deixar vestígios.  Não há notícias deles há quase um mês. Foram abduzidos pelo inchaço.

Apontados com horror e entre gritos de espanto pelas pessoas na rua, nas filas dos supermercados, nas festas da família e na sala de espera do consultório médico, meus pés bem que gostariam de se esconder, mas não há local fechado no qual possam se abrigar. Eles são obrigados a se exibir o tempo todo em um par de sandálias velhas e desbotadas, do estilo rasteirinhas, número 39, herdadas de uma amiga que sofreu do mesmo mal na gravidez (e sobreviveu). Assustados, meus pobres pés percebem que no fim do dia até as famigeradas e enormes rasteiras ameaçam ficar pequenas. É nessa hora que as tirinhas finas do calçado começam a entrar na carne gorda do tornozelo e no dorso elevado e lá deixam marcas profundas que denunciam ainda mais a deformidade. Nesse momento só resta aos meus intrépidos amigos arremessar as sandálias o mais longe possível e seguir a caminhada solitários, sem calçado, sem sola, sem luxo e sem glamour.

E no meio desse que deve ser o pesadelo de todo podólatra, meus pés, meus queridos pés que me aguentam o dia inteiroooo sonham com seus amados companheiros  sapatos número 36 que, por sua vez, aguardam ansiosos, trancafiados em suas caixinhas no closet pelo dia em que poderão novamente desfilar seus saltos, tiras e vernizes. Em vez disso, meus envergonhados pés vestem meias elásticas indicadas para pessoas que têm varizes. As meias são feias, quentes e difíceis de colocar, mas garantem algumas horas de conforto, mesmo que incapazes de cumprir sua missão de evitar o inchaço.

Ah, amigos pés. Tenho pena de vê-los assim: tão inchados e envergonhados de sua situação. Gostaria de afagá-los, massageá-los ou simplesmente espalhar sobre eles um pouco de creme hidratante. Mas há tempos mãos e pés já não se alcançam. Impedidos de se encontrar pessoalmente, apenas se cumprimentam de longe. Numa tentativa de diminuir a sensação de desprezo e abandono que tomou conta de meus companheiros pés, marco uma hora na renomada  pedicure do bairro. Mando amolar meu único melhor alicate de cutículas. Compro um creme especial de esfoliação. Na hora agendada, chegamos ao salão: meus deformados amigos e eu. É a primeira hora da manhã, mas meus amigos franksteins já provocam olhares espantados e comentários maldosos:

– Menina, como seus pés estão inchados! – (Não diga, eu nem tinha notado)

– Nossa, como é que você aguenta? (Eu não aguento, os pés é que me aguentam)

– Fica de olho na pressão: pés inchados assim sempre vêm acompanhados de pressão alta e significam problema grave. (Minha pressão é sempre baixa, o que isso significa, então, doutora-sabe-tudo?)

– Se já está assim a esta hora, imagina no fim do dia. (Não preciso imaginar, estou com meus pés o tempo todo e vejo o que acontece)

– Você sabe que os pés aumentam um número depois da gravidez? (Se é assim, minha mãe – que teve 4 filhos – calçava 30 quando engravidou a primeira vez?? Isso sim seria aberração)


A pedicure bem que tenta, mas não consegue fazer muito pelos meus inchados amiguinhos. Cada aproximação de um palito ou alicate gera um grito de dor e agonia. As unhas estão afundadas e quase desapareceram nas carnes dos dedos. É impossível fazer o trabalho sem arrancar um pedaço da massa gorda e  deformada. Um filete de sangue escorre pelo cantinho do dedão. Vencida pelo cansaço inchaço, desisto de tentar melhorar a aparência dos meus pães pés, volto para a casa e dou a eles algumas horas de descanso no alto de uma confortável almofada. Os gorduchos amiguinhos repousam agradecidos. Parecem confiantes de que voltarão – um dia –  a ser elegantemente conduzidos em belos scarpins, quando me ouvem dizer com voz terna e quase infantil:

Bebê amado: por você tudo isso vale a pena. E eu faria de novo, quantas vezes fosse preciso. Falta pouco agora para você sair daí.

Ouço quando tendões, ligamentos e músculos suspiram num indisfarçável alívio. Meus pés parecem inflar de tanta alegria ao ouvir a notícia: ah, falta pouco! A única coisa de que vão sentir falta é a massagem e os beijinhos que ganham de vez em quando do meu marido.  Coisa de príncipe, né? Mesmo que seja pra agradar uma princesa que não conseguiria, mesmo se quisesse, usar um sapatinho de cristal. Nem se fosse número 39. Afinal estes pés agora têm dorso número 42 ou 43.

33 comentários 22/11/2009

Sem saída (o caso do fiofó entupido)

cadeadoSabe aqueles comerciais de TV que mostram iogurtes, suplementos naturais, benzedeiras e talismãs que prometem “um intestino que funciona como um relógio”? Sempre me causaram um misto de angústia, alegria e descrençaAngústia pela vergonha alheia que sentia ao ver atores, diretores e outros profissionais envolvidos na cômica e difícil tarefa de vender um produto que garante ao consumidor a certeza de cagar com hora marcada.

Alegria pelas risadas que algumas propagandas conseguiam provocar em mim – e em outros telespectadores, bem sei – ao apresentar o assunto. Como o tema é, digamos, assim…meio “preso”, fazem de tudo para tratá-lo com humor e a coisa acaba ficando meio ridícula.

Descrença na eficácia do produto e na existência de gente tão entupida e desesperada quanto aqueles atores mostrados nas propagandas. Não dava pra acreditar que alguém realmente tivesse tanta dificuldade para sentar lá no vaso sanitário, abrir o desktop, esvaziar a lixeira e clicar na descarga. A não ser que fosse algum sujeito com uma grave doença no intestino, o que não justificaria tomar litros de iogurte, mas sim procurar um médico.

Paguei minha língua. E paguei com o c*. Se eu acreditasse em castigo divino ou na lenda de que algumas pessoas tem poder de rogar pragas nas outras, explicaria de forma esotérica o meu fiofó entupido a partir da 30.a semana de gestação.  Não que antes da gravidez eu fosse o tal “reloginho” da propaganda, mas “cagar ou não cagar” nunca foi “eis a questão” na minha vida. Era tão normal quanto tomar água ou puxar o freio de mão ao estacionar o carro. Coisa mecânica do dia a dia, que eu fazia sem prestar atenção. Bem diz o ditado que a gente só dá valor ao que tem depois que perde. E o poder de dar uma boa cagada antes de ir dormir é algo que a gente precisa valorizar, gente amiga!

Desconhecia a importância do assunto. Se ri dos entupidos, se zoei as propagandas de laxantes e iogurtes milagrosos, foi por pura ignorância. Só agora, aos 35 anos de experiência cagona (que começou com mecônios tímidos na década de 70, nas fraldinhas de pano que mamãe lavava) me dou conta de como o assunto “intestino” é constrangedor para a maioria das pessoas, inclusive para mim. Ao lavar o fiofó, senti com as pontas dos dedos que havia alguns carocinhos naquela área. Imagina o susto.

Passei um dia angustiada com aquilo, queria ligar pra médica mas não sabia por onde começar a explicação. Então procurei a ajuda da pessoa que melhor me conhece: por dentro e por fora. Por cima e por baixo. Na frente e atrás. Da perseguida ao fiofó. Aliás, ela até já havia passado talquinho no meu bumbum, antes da prática ser condenada, lá nos tempos dos alfinetes gigantes:

“Tô com bolinhas no c*, falei pra minha mãe.

Alívio quando mamãe sabe-tudo explicou que era normal. Pânico quando ela engatou no papel de enciclopédia materna e deu nome pra´quele fenômeno: “São hemorróidas, algumas mulheres tem isso na gravidez. Eu mesma tive, mas sumiram depois do parto”. Mais pânico quando ela disse que em alguns casos a coisa complica e uma prima havia até passado por uma cirurgia pra resolver o problema.  Imaginei num futuro não muito distante meu destino de humilhação:  uma sala de cirurgia, minha bunda pelada, arreganhada e erguida e um bando de médicos costurando meu fiofó. Pânico master blaster.

gravidabanheiroMas nem assim consegui ligar pra médica. Mamãe aconselhou e eu aumentei a ingestão de fibras e água. Comprei litros do tal iogurte que prometia desentupir minha saída. Nada adiantou. Uma semana depois tive consulta com a obstetra e fiquei surpresa com a minha dificuldade em falar do assunto. Aquela mulher já havia me visto pelada, já havia enfiado até a mão na minha vagina, daqui a algum tempo vai trazer meu filho ao mundo… e eu ali com vergonha de falar que tinha uns carocinhos no fiofó. Parecia que a garganta ( não o c*) estava entupida. Tá certo que o fiofó é feinho demais, tadinho. E faz um serviço que não cheira nada bem. Mas o assunto era importante, eu sentia dor e aquela situação estava atrapalhando minha vida. Mesmo assim a reclamação não saía. Dei algumas voltas até conseguir chegar ao assunto e falei baixinho, olhando para o lado:

– Acho que estou com uns…umas…é….alguma coisa…lá…(comicamente apontei para trás com o dedão) sabe… minha mãe falou que é normal, que ela teve, que sarou depois, que chamam de…é…acho que é…são …ahn…hemorróidas.

Achei que a notícia teria um impacto tremendo sobre a médica. Fiquei esperando uma mexida incomodada na cadeira ou uma pigarreada para disfarçar o constrangimento.

Sangra?

Lembra o pânico mega blaster? Foi promovido a chefe e demitiu todos os meus pudores:

– Essa porcaria pode sangrar, doutora????

Depois de um verdadeiro tratado sobre o que são hemorróidas, o tratamento, as possíveis complicações e a necessidade de manter o fiofó em ordem para a hora do parto normal, a médica prescreveu um medicamento fitoterápico para auxiliar no funcionamento do intestino e uma pomadinha que deve ser aplicada no fiofó toda noite, antes de dormir. Tudo de uso permitido na gravidez.

Meio sem graça, entreguei a receita médica ao marido. Um gentleman. Não fez perguntas. Mas deixou claro que estava por dentro do problema na saída do esgoto: junto com os remédios, trouxe também ameixas, aveia e mamão para a casa.

O fitoterápico fez efeito quase imediato e eu voltei a sorrir e a cantar. DesentupidaPassei a ver o mundo com outros olhos se é que você me entende.

Não dou mais risada dos comerciais de tv. Fico emocionada com eles, num sentimento de solidariedade aos que enfrentam congestionamentos gigantescos e horas eternas e suadas no banheiro. E um viva às ameixas! Hip hip hurra!!

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Saiba mais sobre o assunto no site do Dr. Drauzio Varella

28 comentários 01/11/2009

Não sou uma grávida alienígena

Tive um certo receio de publicar o post anterior (sobre minhas encanações e limitações na hora do sexo). Achei que seria apedrejada. Daí pensei: “sou anônima mesmo, vão jogar pedra no vazio”. Tem sido um alívio ler os comentários. Quantas mulheres passam e passaram (passarinho e passarão) por situações parecidas! Depois de ver (ler) a reação da maioria, me senti menos só, menos alienígena, anormal, esquisita, freak. Obrigada a todas (os) pela sinceridade!

20 comentários 23/10/2009

Método de alargamento para o parto natural

Que fique claro que isso foi ANTES da travada. Aliás, bem antes (ou seja, não foi isso que causou a dor na coluna). Na cama, num momento raro de sexo selvagem durante a gravidez (lá pelo final do 7.o mês de gestação), eu de barrigão para cima e meu marido em cima, todo empolgado numa performance que quase me fez esquecer minhas formas atuais. Tentando me sentir pelo menos um pouco sexy, fixei bem o olhar no rosto lindo do meu marido e procurei não abaixar os olhos para o meu corpo.

Lembra de como você sempre achou uma delícia fazer isso. Concentra em como esse homem é gostoso e apaixonado por você. Finja que não tem uma barriga enorme, dois peitos soltando colostro e um par de pães pés inchados. Ignora suas toneladas a mais,mulher.  Aproveita!Vai saber quando é que vocês vão ter tempo e ânimo pra isso depois que o bebê nascer e a vida for uma sequência de noites mal-dormidas, fraldas sujas e visitas ao pediatra.

Já tinha acatado a ordem da sexóloga Marta Suplicy e estava no maior clima “Relaxa e Goza”, aproveitando cada momento do rala e rola com o maridão, quando senti um chute bem no meio da barriga e uma cabeçada na altura da bexiga. Instintivamente olhei para a barriga.

(Sabe nos filmes e desenhos animados, quando tem alguém no alto de um prédio ou penhasco e dizem para não olhar para baixo? Daí a personagem olha para baixo, é tomada pelo medo e acaba despencando? Foi mais ou menos assim.)

Olhei para baixo e houve um efeito especial instantâneo: sumiu música, desapareceu tesão, perdi o rumo. A cada cutucada do bebê, menos vontade eu tinha. E o bebê não parava de mexer. Meu umbigo subia e descia como se fosse um balão sendo inflado e esvaziado. Marido percebeu, é claro, e perguntou se estava tudo bem.

Apontei o calombo na barriga, ele riu (sem parar o que estava fazendo).

– Será que ele tá sentindo alguma coisa?

– Deve estar gostando do balanço, né?  – respondi.

– É isso aí, filhão. Aprenda com o papai! Já vai nascer sabendo das coisas.

Depois de uma conversa dessas, quem é que continuaria o sexo como se nada tivesse acontecido?

Resposta óbvia: um homem, é claro.

Eu já tinha perdido o interesse, só conseguia prestar atenção nos movimentos do bebê, que parecia ainda mais empolgado depois do papo com o pai. Marido percebeu:

– Não quer mais? Quer que eu pare?

– Ah, eu não consigo me concentrar com o bebê chutando assim…

– Se você quiser eu posso continuar. Assim vou alargando tudo aqui embaixo pra facilitar quando o bebê for sair.

Aí foi o fim, né? Comecei a rir, ele riu mais ainda, deitou do meu lado e foi aquela gozação. Mas não no sentido sexual da palavra.

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Sexo na gravidez

-> A não ser que haja alguma razão específica, os médicos liberam o sexo durante toda a gravidez. Alguns podem recomendar que não haja relação sexual a partir do oitavo mês, mas isso varia.

-> Algumas grávidas tem muita vontade de fazer sexo. Outras perdem totalmente o interesse. Isso também varia. O que não varia é a mania que as grávidas ninfomaníacas tem de ficar falando sobre como ficaram taradas durante a gestação.

-> Até uma certa fase, a posição de “conchinha”, com papai e mamãe deitados lado a lado (papai atrás da mamãe) é muito confortável. Depois o barrigão pode incomodar. Papais com braços fortes conseguem ficar por cima até o final da gestação (mas precisam ser realmente sarados, pois precisam apoiar todo o peso em seus braços, para não apertar a barriga da mamãe). Outra posição possível é a mamãe por cima, esmagando o papai (é ótima, pois assim papai tem a chance de descobrir como é que a mamãe normalmente se sente e decide fazer um regime).

-> Os médicos dizem que um pouquinho de sangramento ou dor após a relação é normal.

27 comentários 20/10/2009

O dia em que a grávida travou

Fui sair do carro e não consegui. Travei. Não conseguia ir pra frente, nem pra trás.  Tentei colocar uma perna para fora, mas uma dor aguda irradiou do rego em direção à coxa esquerda. Minha reação imediata foi recolher a perna. Doeu mais ainda. Então fiquei assim, sozinha, sentada no banco do carro, olhando para a parede da garagem, com uma perna para fora, à espera de um pouco de coragem para enfrentar a dor e levantar. Afinal, não poderia passar o resto do dia ali, naquela posição. Ou poderia? Olhei para os lados e vi a garrafa d´água que sempre carrego comigo, um pacote de biscoitos que havia comprado no caminho, um livro… Bom, talvez não fosse má ideia ficar ali imóvel durante algumas horas, até meu marido chegar e me tirar dali. Claro que cogitei isso por apenas alguns segundos. Era incômodo demais e, para piorar, eu estava com vontade de fazer xixi (como sempre).

Ok, colega, no três. E um…e dois…e dois e meio…e…

Quem depila a própria perna, virilha, buço.. ou o saco e as costas, no caso dos meninos, sabe o que eu senti. Foi igual ao momento em que a gente passa a cera, coloca o papelzinho (ou plástico) sobre a pele, segura a pontinha e precisa respirar fundo antes de puxar… Às vezes falta coragem. Se outra pessoa puxasse seria tão melhor.

Como numa depilação mal acabada fiquei ali cogitando: vou ou não vou?

Tentei sair devagar, mas a dor era muito forte e eu não conseguia vencer a barreira que ela criava. Acabava voltando para a posição anterior. Então levantei de uma vez só e dei um grito. Caminhei no melhor estilo Concurda de Notre Dame até o banheiro e fiz xixi praticamente em pé (na medida do possível), pois tinha medo de sentar e ficar travada lá na privada.

Sempre com dor, andando devagar e mancando, segui para a minha cama e lá fiquei até meu marido chegar. Só conseguia deitar de lado e não podia me mexer muito. Adormeci. Acordei uma hora depois com vontade de fazer xixi. Esqueci da coluna (bexiga de grávida sempre tem prioridade) e levantei de uma só vez. Gritei de dor. O ritual durou dois dias: deitada o tempo todo, com pausas apenas para ir ao banheiro e dificuldade imensa para sentar e comer alguma coisa.

No início da semana consegui uma consulta de emergência no ortopedista conhecido do meu irmão. Me apalpou, fez mil perguntas.

– É o cóccix. Provavelmente está trincado ou inflamado. Você levou algum tombo?

Não recentemente, pois fiquei muito cuidadosa na gravidez. Mas ao longo da minha trajetória foram vários: lavando banheiro, descendo escada, correndo em dia de chuva. Sou praticamente campeã da modalidade e a favorita do esporte nas Olimpíadas de 2016.

Seria preciso um raio-x pra confirmar. E remédios para amenizar a dor.

Não, de jeito nenhum, não pode remédio, não pode exame.

Então conviva com isso. Bolsa de água quente na região dolorida, um pouco de massagem podem aliviar (vai, marido, trabalha!) e fisioterapia. Receitou também uma cinta ortopédica específica para grávidas, que serve para aliviar a coluna (minha mãe apelidou de “barrigueira de égua”).

No dia seguinte decidi procurar uma segunda opinião. Apalpou, fez mil perguntas.

– É lombalgia. É comum na gravidez.

Deve ser uma lombalgia no cóccix trincado. E se eu procurasse uma terceira opinião acabaria diagnosticada com uma lombalgia ciática no cóccix trincado da quinta vértebra. Melhor parar de entrar em carro e sair de carro para ir ao médico e ficar quieta em casa.

Pelo menos em uma coisa os dois médicos concordaram: engordei demais e o sobrepeso pode ter desencadeado o problema ou simplesmente revelado um problema que já existia, mas eu não tinha me dado conta ainda. Diagnóstico: a gula da grávida estava pesando no lombo velho de guerra.

Agora ainda sinto um pouco de dor se fico tempo demais sentada ou em pé. Mas voltei a caminhar normalmente sem mancar. A boa notícia é que finalmente, agora na 31.a semana de gestação, consegui a desculpa perfeita para não fazer sexo e contratar uma faxineira. Não necessariamente nessa ordem. Arranjar uma faxineira é sempre mais importante que qualquer coisa.

16 comentários 19/10/2009

Cem gramas II, a missão

exercicioContinuo a divagar sobre o post Cem gramas (ou a Dança da Balança):

Quando engravidei pesava 60 kg. Não era nenhuma top model, mas as poucas gordurinhas estavam bem distribuídas. Tinha barriga tanquinho, coxas torneadas, bumbum sarado. Treze quilos a mais (e cem gramas…não vamos esquecer dos cem gramas!) em sete meses têm uma consequência direta e dolorida nas pernas, na circulação e nos ossinhos de uma vertebrada acostumada a carregar bem menos peso. Sem falar na falta de equilíbrio (emocional e físico).

Para me defender das broncas da médica (que esperava que eu engordasse 12 kg em 9 meses), desenvolvi muitas teorias e apresentei algumas para a minha obstetra-puxadora-de-orelha-de-grávidas-gordinhas.

>>> Pausa para um adendo

Tenho uma teoria sobre a obstetra também. Esbelta magrela como é, certamente ela tem raiva das pessoas carnudas e gostosinhas como eu. Aposto que sempre sonhou em ter estas coxas de mulher-melancia (melancia um tantinho “passada”, é verdade), estes peitos bovinos (existe vaquinos?) e esta anca de rinoceronte. Então a gente não pode levar muito a sério quando ela dá bronca por conta de inocentes quatro quilinhos (e cem gramas) a mais em um mês. Pessoa vingativa que é, ela dá bronca, critica a alimentação desta grávida esfomeada e ainda levanta suspeitas de doenças graves como diabetes gestacional falta de vergonha na cara.

A boa notícia é que a primeira foi descartada após a realização de um sádico exame durante o qual a vítima grávida  ingere um pote de açúcar e depois é furada seguidamente. A má notícia é que a segunda doença (falta de vergonha) não tem cura. Então meu acesso à sorveteria continua liberado. Já estou estudando com meus advogados um processo por danos morais e alimentícios contra o dono da sorveteria, um dos culpados pelos meus três quilos a mais no sexto mês de gestação e pelos quatro quilos (e cem gramas) a mais no sétimo mês. Se ganharmos a causa, vamos receber o pagamento todo em banana split.

Fim da pausa para o adendo<<<

Enfim, desenvolvi algumas teorias para justificar as mudanças estruturais (também conhecidas como “aumento rápido da gordura localizada” ou “como me tornei uma rolha de poço”) durante a gravidez:

1)  Projeto Arquitetônico

Sou muito “miudinha”. Ombros pequenos, cintura muito fina (acho que deveria ter escrito que eu era muito miudinha), pouco bumbum. De repente, este corpo miúdo deu de cara com a grata missão de gerar, alimentar e carregar um menino que, segundo os exames já mostraram, deve nascer com um peso e uma altura acima da “média”. Como esse trabalho está sendo realizado na região do abdômen, é natural que o corpo providencie um alargamento das bases (coxas, bundas, pernas e pés) da estrutura. Afinal, não é preciso ser um Niemeyer para entender que a base precisa ser proporcionalmente forte para suportar o peso que é colocado sobre ela. Então o que alguns chamam de gordura excessiva, eu prefiro(arquitetalmente falando) chamar de Processo de Ampliação da Base do Sistema Gestacional.

>> (A magra obstetra riu dessa teoria, mas acho que foi pra disfarçar o fato de que ela não entende nada sobre projetos arquitetônicos)

MulherPolvo

-2) Ritmo lento

Sempre fui muito dinâmica. Pessoa-polvo mesmo. Fazia mil coisas ao mesmo tempo. Trabalhava o dia todo, estudava e cuidava da casa. Conseguia, simultaneamente, passar roupa, falar ao telefone, estruturar um novo projeto no computador, cozinhar feijão, matar um pernilongo, depilar as pernas, tirar as cutículas, reclamar do calor, assistir à televisão, criticar os impostos (deixem minha poupança em paz) e monitorar a máquina de lavar roupa. Além disso, fazia caminhada e natação. Quando engravidei, a médica profetizou: deitarás e gerarás. Viu? Tudo culpa daquela magrela invejosa, de novo! Durante os três primeiros meses de gravidez, por sugestão dela, reduzi o ritmo. Não corri, não pulei, não passei rodo no chão da casa. Parei com os exercícios, ingeri vitaminas e ácido fólico. Os primeiros três meses da gestação são os mais frágeis, descanse e observe sua barriga crescer, disse a médica. Foi o que eu fiz. Deitei no sofá com um bom livro e alguns excelentes dvds e curti. Não! Ela não tinha orientado algo do tipo “aproveite que está em casa e abra a geladeira de meia em meio hora para atacar o pudim de leite condensado, o sorvete de manga e o leite gelado com cereal de chocolate”. Isso foi ideia minha! Mas é preciso frisar que em nenhum momento ela deixou claro que isso poderia ser prejudicial, ela nunca disse algo do tipo: “fique longe do sorvete de manga!”

Então eu pergunto: na minha inocência de grávida de primeira viagem, como eu poderia saber que aquelas doces criaturas que moravam na geladeira eram na verdade seres malignos dotados do poder de inchar coxas e bundas?

No final das 12 semanas de gestação, quando finalmente eu pretendia retomar as atividades cotidianas e cansativas como caminhada no parque e pilhas de roupas para passar, houve um sangramento e a médica recomendou repouso absoluto. Friso novamente que ela agiu de má fé ao não me avisar que repouso absoluto na casa da minha mãe significaria quinze dias deitada sendo cevada com os meus quitutes favoritos preparados pela melhor chef do mundo.

>> (Essa teoria também não convenceu minha cética e invejosa médica. Ela argumentou que eu engordei pouco nos primeiros quatro meses. O ganho de peso excessivo só foi registrado a partir do quinto mês, quando eu já havia retomado minhas atividades normais e iniciara a prática de exercícios físicos)

3) Exercício físico aumenta a fome

O argumento da médica em relação à minha segunda teoria abriu meus olhos. Claro: foi justamente quando comecei a fazer hidroginástica que meu apetite aumentou drasticamente e passei a engordar sem pudor (como se outrora tivesse tido algum). Fala aí: quem é que nunca ouviu dizer que atividade na água dá fome? Viu? Culpa da médica mais uma vez. Lá veio ela, envolta em seu modelito ajustado à cintura tamaho 38, dizer que seria ótimo se eu fizesse hidroginástica. Fui para a água pular que nem um peixe-boi peixe-vaca na Piracema, nadando contra a corrente, só pra exercitar todo músculo… e o que aconteceu? Fome triplicada. Em vez de “comer por dois”, depois das aulas passei a comer por três:  por mim, pelo bebê e pela professora de hidro, outra magricela vingativa que me faz andar de um lado para o outro na piscina durante quarenta minutos, sob berros de“mais rápido, mais força, ânimo”.

>> (Nem tive coragem de apresentar essa teoria à médica. Ainda resta alguma vergonha nesta carinha rechonchuda).

DietaSorvete4) Fui vítima de um complô!

Não tive enjoo, nem azia, nem vômitos. Todas essas coisas desagradáveis que impedem a grávida de comer. O que eu tive desde o início, e tenho até hoje, foi fome. Muita fome. Disfarçadas de amigas, mãe, cunhadas e sogra, as cúmplices da minha médica esquelética ficavam (e ainda estão aqui) à minha volta repetindo mantras gestacionais:

– você não está gorda, está grávida!

– você precisa comer por dois!

– depois que o bebê nascer você “perde” tudo rapidinho!

Conclusões do caso:

1)Fora de cogitação fazer dieta durante a gravidez, né? Meu bebê está forte e saudável graças à minha dedicação em nutri-lo diariamente com frutas, legumes, arroz integral, cereais, leite, sorvete, pudins, pães, empadinhas, esfirras e outros suprimentos calóricos. O jeito é seguir com a dieta, pois não posso modificá-la agora. Isso poderia causar um trauma grave no bebê. Ele pode decidir chutar meu estômago com muita força cada vez que eu me recusar a comer um danoninho ou um flan de chocolate.

2) Lá no início da gravidez, quando a médica disse que eu poderia/deveria engordar uns 12 kg no total durante toda a gestação, eu pensei:

– Gente, essa mulher é demais! Cheia de diplomas, super ocupada, profissional dedicada, e ainda encontrou tempo para desenvolver seu talento como comediante.

agora descobri que ela não estava contando piada.

bebefortesaudavel

4)A médica se revelou boa pessoa ao me tranquilizar. Minha maior preocupação com o excesso de peso era prejudicar o bebê ou a hora do parto.  Mas a obstetra garantiu que os quilos a mais não interferem em nada. Sem falar que minha pressão está sempre baixa. Meu bebê está saudável, perfeito e muito serelepe (mexe o tempo todo!!) e isso é o mais importante para mim. Então: tô nem aí, tô nem aí, tô nem aí…

41 comentários 06/10/2009

Mãevó

DuasBarrigasSala de espera lotada. É dia de atendimento apenas de gestantes, então as cadeiras acomodam principalmente barrigudas, algumas acompanhadas, outras sozinhas (como eu). Sempre levo um livro para suportar a longa espera, mas geralmente não tenho tempo de abri-lo. Alguém acaba puxando papo e o tempo passa rapidamente enquanto trocamos informações sobre a gravidez. O assunto quase sempre começa do mesmo jeito monótono:

– De quanto tempo você tá?

– É menino ou menina?

– Primeiro filho?

Encaro com resignação essa primeira parte por que sei há chance da coisa  ficar interessante depois. É como almoçar um prato de legumes de olho na sobremesa. Histórias pitorescas costumam acompanhar aquelas barrigas na sala de espera e gosto de ouvi-las.

Na última consulta uma jovem de 18 anos puxou papo comigo. Ela estava acompanhada pela mãe, que de vez em quando fazia algum comentário, mas sem participar muito da conversa.  Durante o interrogatório preliminar eu soube que aquele era o primeiro filho, sete meses de gestação, era uma menina, ainda não havia escolhido o nome, a gravidez não havia sido planejada, ela e o namorado não queriam casar, nem morar juntos.

No meio da conversa, a secretária da obstetra vem até a porta da sala de espera e chama mais um nome. A fila anda. A mãe da jovem levanta e diz:

– Eu! Aqui! – e  acompanha a secretária.

Tentei entender a situação. Era dia de consulta apenas de gestantes. Nesse dia, a médica não atende pacientes que não estejam grávidas. A filha era a barriguda da família. Por que a mãe entrou e a grávida ficou sentada ali na minha frente, sem se mexer? Acho que tinha um ponto de interrogação gigante na minha cara ou a menina lia pensamentos:

– Hoje eu não tenho consulta, é só a minha mãe.Ela até queria que eu entrasse com ela, mas acho que sozinha ela fica mais à vontade, né?

Ela voltou então a falar de enjoos, berços ideais e estrias. Cerca de 20 minutos depois a mãe voltou e sentou ao lado dela. A jovem grávida perguntou:

– E aí, mãe? Está tudo bem?

É…está, né? – a mãe suspirou.  Depois de um tempo ela acrescentou:  – De acordo com exame, estou de 15 semanas.

Não me controlei:

– Você também está grávida???

A expressão da mãe era um misto de vergonha, orgulho e resignação. Então ela contou em detalhes a história da sua vida. Tinha 47 anos, havia casado muito cedo. Mãe de três filhos, havia enfrentado na última gestação uma grande complicação e os médicos garantiram que ela nunca poderia engravidar novamente. Nunca mais se preocupou com métodos contraceptivos. A menstruação era irregular, praticamente inexistente. Nos últimos meses seu peso havia aumentado, estava sentindo muita fadiga e o corpo parecia inchado. Sem falar no calor insuportável. Deduziu que era a menopausa que chegava acompanhada da notícia de que ela seria avó. Procurou a médica, que indicou alguns exames. O resultado surpreendeu a família toda:

Loucura, não é? Eu aqui  feliz, me preparando para ser avó e recebo uma notícia dessas.

A filha sorriu:

Não é o máximo? Tio e sobrinho vão ter quase a mesma idade.

Nossa conversa foi interrompida pela secretária, que chamou meu nome dessa vez. Me despedi e entrei no longo corredor da clínica, encantada. Como sempre, a sala de espera não havia me decepcionado.

13 comentários 27/09/2009

“Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”

SomosTodosDiferentesFiquei emocionada com a solidariedade e as palavras de conforto de tantas pessoas que não conheço. Este post é para agradecer a todas as mensagens super carinhosas deixadas na parte de comentários do post anterior. Deixo aqui uma mensagem única de agradecimento, não apenas pelo apoio e o carinho (que sempre me surpreendem nesta nova experiência que é ter um blog), mas também pelo que considero ainda mais importante: a ausência de julgamento.

Em nenhuma das mensagens fui julgada ou condenada pelo fato de admitir que nunca havia pensado em ter mais filhos, mas que passei a pensar em tê-los depois que soube que talvez não possa ter outras gestações (algo que poderia soar meio mesquinho, confuso, infantil, não sei). Ninguém questionou minha opinião, meus sentimentos de insegurança, a contradição das minhas palavras.

O que recebi foram palavras de incentivo e esperança. Ninguém julgou o que escrevi. Cada pessoa  que deixou um comentário aqui aceitou que eu tenho o direito de ser do jeito que sou . Minha realidade não é igual a de mais ninguém. Das minhas dores, medos, anseios e razões para ser como sou, apenas eu sei. Aliás, às vezes nem eu mesma sei. Por que muitas vezes nem a gente se conhece direito. Muias vezes descobrimos facetas nossas que não imaginávamos existir. Elas aparecem geralmente nas horas de dificuldade, de pânico, de necessidade. Nessa hora até nós mesmos podemos ficar surpresos com as nossas reações. “Nossa, não sabia que eu era assim”.

Essa reação da maioria me fez pensar (yes, de vez em quando pega no tranco, gente!) sobre algo que tem me incomodado nas redes sociais da internet que comecei a frequentar depois da gravidez.  Ao navegar por esse mundo totalmente novo para mim, conheci pessoas que foram vítimas de uma crueldade inacreditável. Ao relatar suas experiências, foram julgadas e massacradas. Muitas vezes o julgamento é disparado por  gente com experiência nula sobre o assunto em questão, bem no estilo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Sabe aquele pai que não quer que o filho adolescente fume, mas acende um cigarro atrás do outro na frente do rebento? Ou a vizinha que não limpa o próprio quintal mas vive apontando a sujeira da calçada da casa ao lado? Gente assim.

Mas a reação ao post anterior mostra que há muita vida sensata na rede, pessoas com capacidade de não julgar, de não condenar, de aceitar que somos todos muito diferentes. É assim que deve ser.

Aqui no blog conto minhas histórias, falo de minhas experiências, descrevo minhas reações. Mas não julgo quem pensa diferente. É o caso por exemplo do post sobre como meu filho é planejado. Foi a minha opção e acho que seria impossível algo diferente acontecer na minha vida, já que tenho pais que me ensinaram a ser assim e me criaram dentro de um verdadeiro comercial do Ministério da Saúde sobre técnicas de prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis e gravidez não desejada.

Mas em nenhum momento condeno, condenei ou condenarei quem fez diferente. Meu objetivo não é comparar histórias. É apenas contar a minha. Não acho que ela seja melhor ou pior do que as histórias dos outros. Não acho que a minha escolha tenha sido a melhor ou a pior, a certa ou a errada. Ela pode apenas ser diferente da opção de outras pessoas, mas isso não significa que seja a correta. Das experiências que me contam, tento absorver sempre algo que me ajude a evoluir cada vez mais. E é isso o que espero que aconteça com quem lê o que escrevo: que use o que achar útil e descarta o restante, sem julgar, sem condenar.

É possível mostrar o valor de uma opinião sem precisar desmerecer a experiência alheia . Como aconteceu no caso da entrevista da Maria Mariana, por exemplo, que para demonstrar o quanto é “perfeita” desmereceu as atitudes de todas as outras mulheres que não seguiram a mesma cartilha que ela. A (ex)atriz e autora poderia simplesmente ter relatado suas experiências como mãe, sua satisfação em ter conseguido o parto normal que tanto ansiava (e a tristeza por enfrentar uma cesárea que não queria), sua realização em passar o dia catando as cuecas do marido espalhadas pela casa. Mas não bastou falar de suas escolhas, ela jogou pedra em quem foi por outro caminho. Para mostrar o quanto é feliz com essas experiências, ela não precisava condenar quem fez outras escolhas. Afinal, as mulheres que gostaram de suas cesáreas ou que preferem não ter marido para não catar cuecas no chão também podem ser felizes. O que é sinônimo de felicidade para uma pessoa, pode não ser para outra. Tem gente que não imagina a vida sem filhos, mas tem gente que é feliz sem família. E não cabe a ninguém julgar as escolhas dos outros.

Apontar

Afinal, quando um dedo seu aponta alguém, outros três dedos apontam de volta para você.


**A frase do título é da Madre Teresa de Calcutá. A frase sobre os dedos não lembro de quem é.”

16 comentários 22/09/2009

Uma ameaça de 3 centímetros

E no meio do útero havia um mioma. Havia um mioma no meio do útero. NaFlorMurcha verdade não é bem no meio. Não entendi direito onde é. O que sei é que está em outra parede, muro,divisória do útero, sei lá como foi que a médica falou, só sei que está longe do lugar no qual meu bebê está crescendo. Ufa! Honestamente, não entendi muito bem a explicação da médica por que não consegui prestar atenção, só me concentrei na parte do “não oferece perigo para o seu bebê, não vai interferir na gravidez”. Depois disso, minha cabeça entrou num turbilhão de alegria e minha vontade era sair correndo dali, respirar um ar puro. Aliviada por saber que não havia risco para meu filho, sorri, agradeci e peguei minha bolsa. Foi o tempo do cérebro processar um pequeno interrogatório. Sentei novamente e disparei:

– Mas e se eu decidir ter outro filho depois? O mioma pode prejudicar?

Quem pergunta o que não deve, ouve o que não quer, já dizia minha avó.

Então a médica respirou fundo, me olhou ternamente e começou a falar pausadamente. Isso me assustou. Conheço essa mulher há anos. Sabia que ela estava se preparando para dizer algo que eu não ficaria feliz em ouvir:

Talvez. Mas só saberemos disso mais pra frente, depois do parto. Quando seu útero voltar ao tamanho normal, faremos alguns exames e vamos acompanhar para ver o que acontece.

Um baque. Eu nem pensava em ter outra gestação. Mas aquilo me deixou triste como se eu tivesse planejado gerar um time de futebol. Saber que pode haver uma espécie de bomba-relógio anti-gestação circulando comigo por aí teve um efeito devastador. Me arrependi de ter perguntado. Estava feliz por saber que não afetava a atual gravidez. Por que fui perguntar sobre uma suposta gestação que em princípio nem deveria mesmo existir? Ah, é o tal controle sobre o próprio corpo, que desejamos tanto ter, mas parece escapar o tempo todo das nossas mãos. Ou do nosso útero. Já que havia estragado tudo com aquela pergunta, aproveitei para questionar um pouco mais:

– Esse mioma apareceu na gravidez? Por que ele não tinha sido detectado em outras ultrassonografias?

– Provavelmente já estava aí, não dá para ter certeza. Agora o útero está crescendo e o mioma está sendo “esticado” (ela fez sinal de aspas com os dedos) junto.

Perguntei ainda se esse mioma tinha alguma coisa haver com aquele hematoma que havia causado sangramento no início da gravidez. Ela disse que não.

A médica ainda falou um pouco mais sobre isso, que eu não deveria me preocupar agora, que o importante é que o bebê está bem, tudo está correndo bem, para eu me concentrar nisso e deixar para me preocupar com o mioma depois, por que faremos exames, etc.

Mas quem consegue esquecer uma conversa assim? Penso no mioma várias vezes por dia. Ele me causa arrepios e indignação. Não faz nada, está lá quietinho. Mas é uma possível ameaça silenciosa para a família numerosa que eu nem havia planejado ter antes de saber que talvez não possa mesmo gerá-la. Alguém entende esse sentimento? Eu não.

18 comentários 21/09/2009

Empurra de volta

DáUmaMãoMarido e mulher deitados um ao lado do outro na cama. Ela então com cerca de 25 semanas de gestação do primeiro filho deles:

Aiiii! – mulher leva as mãos até o ventre.

Que foi??!

Nossa! O bebê deu uma mexida tão forte agora…

– Doeu?

Vontade de responder “não, senhor Perspicácia, eu sempre gemo, franzo a testa e faço cara de dor quando alguma coisa é gostosa, vai ver sou masoquista“, mas mulher se controla, faz que sim com a cabeça, comprime os lábios num misto de dor e alegria (tão bom saber que o nenê tá forte assim, pulando na cama elástica do útero logo de manhã) e se prepara para a próxima investida do tourinho. Afinal, ele nunca bate uma vez só.

– AAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIII! – a segunda pirueta é bem mais intensa e a mulher sente um empurrão bem forte lá embaixo, próximo à futura área de saída do bebê.

Vixe, amor, essa doeu, hein?

Ela quer dividir o momento, descrever as sensações para o pai do bebê:

– Não é só dor…é que dá um pouco de aflição…parece que ele esticou o bracinho todo dentro do canal da vagina e colocou a mãozinha pra fora. É estranho. Será que ele tá tentando sair, amor? brinca a gestante

Marido senta na cama, atônito:

O quê? Sair? Agora? VOCÊ SENTIU ELE TENTANDO SAIR? (voz de pânico paternal) Não é melhor ligar pra médica? Ou empurrar ele de volta, sei lá?

Acreditem ou não: ele estava falando sério.

22 comentários 19/09/2009

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