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Ansiedade

Sobre O Tempo

(Pato Fu)

Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio

Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Como zune um novo sedã

Tempo, tempo, tempo mano velho
Tempo, tempo, tempo mano velho
Vai, vai, vai, vai, vai, vai

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final

Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Como zune um novo sedã

Tempo, tempo, tempo mano velho
Tempo, tempo, tempo mano velho
Vai, vai, vai, vai, vai, vai

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada

Só me derrube no final…
Vai, vai, vai, vai, vai, vai

—————————————————————————————–

Essa é a música que toca dentro da minha cabeça enquanto zanzo pela casa, todas as noites, insone e gasosa, como uma alma penada tamanho GG. Em vez de correntes, arrasto meus pés gordos e inchados, enfiados nas sandálias velhas herdadas de uma amiga ex-grávida. Canso logo e deito de novo. Mas os pensamentos vêm todos de uma só vez até a minha cabeça. Me atacam como moscas varejeiras sobre uma manga madura caída no meio da grama.

Quando será? Como será? Vai doer? Estarei sozinha? Saberei que é a hora? Vai correr tudo bem? Meu bebê será perfeito? Saberei cuidar dele? Será que aquela camisola vai servir? Eu não devia ter comido aquela tigela de sorvete com granola por que se eu parir no meio da noite vou vomitar tudo. Ele vai ter cólicas? Como é mesmo que limpa o saquinho do bebê? Ainda bem que não é menina, todo mundo fala que limpar pererequinha é mais complicado. Será que é melhor depilar amanhã pra garantir? Será que eu coloquei calcinhas em número suficiente na mala? Eu derrubo tudo no chão, como é que vou segurar uma coisinha tão pequena e frágil? Que vontade de comer comida chinesa…aff…são 3h da manhã já…hmmm…será que alguém entrega nesse horário? Olha esses pés…olha esses pés… Ai, uma pontada, será que é… ah…era um pum… Nossa, esse cara na tv me lembra aquele ex-namorado…ainda bem que eu não casei com ele, já pensou um filho cabeçudo assim no parto normal? Quando será que vou fazer sexo de novo? Será que ele vai ter alguma alergia? Nossa, que ansiedade, será que é hoje? Pensando bem, aquela manta…hmm…melhor checar a mala do bebê…de novo. Será que ele é cabeludo? Ai, que céu lindo, muito lindo…será que é hoje? Tô com premonição…ou são gases? Será que ele vai mamar numa boa, sem problemas? Pensamento positivo…pensamento positivo…se concentra, só pensa em coisas boas para atrair coisas boas… Melhor imaginar o pior acontecendo, melhor ser realista, assim se acontecer o pior estarei preparada… Meu Deus, vou dormir, não aguento mais ver esse filme no Universal Channel, há 4 madrugadas só dá ele na programação. Que saudade eu vou ter desta barriga. Olha esses pés!!! Não tem ninguém no Messenger!  Será que ele vai ter cólicas? Como é mesmo que limpa o umbiguinho?

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36 comentários 24/11/2009

Sapatão de cristal

Observo com aflição e pesar aqueles que outrora foram chamados de pés e agora não passam de dois montes deformados lá embaixo, sustentando os quase 20 quilos a mais que ganhei na gestação.  Quando acordo eles já estão assim. Verdadeiras aberrações da anatomia grávida. Se está calor (e está sempre calor nesta Terra avacalhada pelo bicho-homem) ficam ainda em pior estado. Os tornozelos se fundiram à massa inchada dos pés e desapareceram sem deixar vestígios.  Não há notícias deles há quase um mês. Foram abduzidos pelo inchaço.

Apontados com horror e entre gritos de espanto pelas pessoas na rua, nas filas dos supermercados, nas festas da família e na sala de espera do consultório médico, meus pés bem que gostariam de se esconder, mas não há local fechado no qual possam se abrigar. Eles são obrigados a se exibir o tempo todo em um par de sandálias velhas e desbotadas, do estilo rasteirinhas, número 39, herdadas de uma amiga que sofreu do mesmo mal na gravidez (e sobreviveu). Assustados, meus pobres pés percebem que no fim do dia até as famigeradas e enormes rasteiras ameaçam ficar pequenas. É nessa hora que as tirinhas finas do calçado começam a entrar na carne gorda do tornozelo e no dorso elevado e lá deixam marcas profundas que denunciam ainda mais a deformidade. Nesse momento só resta aos meus intrépidos amigos arremessar as sandálias o mais longe possível e seguir a caminhada solitários, sem calçado, sem sola, sem luxo e sem glamour.

E no meio desse que deve ser o pesadelo de todo podólatra, meus pés, meus queridos pés que me aguentam o dia inteiroooo sonham com seus amados companheiros  sapatos número 36 que, por sua vez, aguardam ansiosos, trancafiados em suas caixinhas no closet pelo dia em que poderão novamente desfilar seus saltos, tiras e vernizes. Em vez disso, meus envergonhados pés vestem meias elásticas indicadas para pessoas que têm varizes. As meias são feias, quentes e difíceis de colocar, mas garantem algumas horas de conforto, mesmo que incapazes de cumprir sua missão de evitar o inchaço.

Ah, amigos pés. Tenho pena de vê-los assim: tão inchados e envergonhados de sua situação. Gostaria de afagá-los, massageá-los ou simplesmente espalhar sobre eles um pouco de creme hidratante. Mas há tempos mãos e pés já não se alcançam. Impedidos de se encontrar pessoalmente, apenas se cumprimentam de longe. Numa tentativa de diminuir a sensação de desprezo e abandono que tomou conta de meus companheiros pés, marco uma hora na renomada  pedicure do bairro. Mando amolar meu único melhor alicate de cutículas. Compro um creme especial de esfoliação. Na hora agendada, chegamos ao salão: meus deformados amigos e eu. É a primeira hora da manhã, mas meus amigos franksteins já provocam olhares espantados e comentários maldosos:

– Menina, como seus pés estão inchados! – (Não diga, eu nem tinha notado)

– Nossa, como é que você aguenta? (Eu não aguento, os pés é que me aguentam)

– Fica de olho na pressão: pés inchados assim sempre vêm acompanhados de pressão alta e significam problema grave. (Minha pressão é sempre baixa, o que isso significa, então, doutora-sabe-tudo?)

– Se já está assim a esta hora, imagina no fim do dia. (Não preciso imaginar, estou com meus pés o tempo todo e vejo o que acontece)

– Você sabe que os pés aumentam um número depois da gravidez? (Se é assim, minha mãe – que teve 4 filhos – calçava 30 quando engravidou a primeira vez?? Isso sim seria aberração)


A pedicure bem que tenta, mas não consegue fazer muito pelos meus inchados amiguinhos. Cada aproximação de um palito ou alicate gera um grito de dor e agonia. As unhas estão afundadas e quase desapareceram nas carnes dos dedos. É impossível fazer o trabalho sem arrancar um pedaço da massa gorda e  deformada. Um filete de sangue escorre pelo cantinho do dedão. Vencida pelo cansaço inchaço, desisto de tentar melhorar a aparência dos meus pães pés, volto para a casa e dou a eles algumas horas de descanso no alto de uma confortável almofada. Os gorduchos amiguinhos repousam agradecidos. Parecem confiantes de que voltarão – um dia –  a ser elegantemente conduzidos em belos scarpins, quando me ouvem dizer com voz terna e quase infantil:

Bebê amado: por você tudo isso vale a pena. E eu faria de novo, quantas vezes fosse preciso. Falta pouco agora para você sair daí.

Ouço quando tendões, ligamentos e músculos suspiram num indisfarçável alívio. Meus pés parecem inflar de tanta alegria ao ouvir a notícia: ah, falta pouco! A única coisa de que vão sentir falta é a massagem e os beijinhos que ganham de vez em quando do meu marido.  Coisa de príncipe, né? Mesmo que seja pra agradar uma princesa que não conseguiria, mesmo se quisesse, usar um sapatinho de cristal. Nem se fosse número 39. Afinal estes pés agora têm dorso número 42 ou 43.

33 comentários 22/11/2009

Tão perto…tão longe

ampulhetaA expressão “estou esperando um filho”  faz muito mais sentido no último mês de gravidez. Agora é mesmo esperar. Só esperar. Parece que os dias  não passam. E ao mesmo tempo tenho a sensação de que tudo está veloz demais e acontecerá uma revolução na minha vida de uma hora para outra, totalmente fora do meu controle: pode ser a qualquer momento. São dias de expectativa, ansiedade, sustos. Para uma grávida de primeira viagem todo dia é o dia. Sei que ainda é cedo — pela conta da médica faltam 30 dias pelo menos. Mas então a cunhada fala que os três filhos dela nasceram todos 20 dias antes do previsto. “Os médicos sempre erram na conta no primeiro filho”. Tem também a vizinha simpática que coloca a mão na minha barriga, olha para o céu e diz com voz de profecia: “da próxima lua não passa”. E aquela dorzinha diferente na virilha…será que isso é uma contração?

Imaginação fértil não ajuda a grávida nessas horas. Já criei roteiros dignos de Hollywood para o momento do meu parto. A bolsa rompeu, não rompeu. A dor foi grande, não teve dor. Eu estava dormindo, estava acordada. Tinha acabado de comer uma tigela imensa de sucrilhos com leite e vomitei tudo a caminho do hospital. O trabalho de parto durou doze horas e pensei que ía morrer de tanta dor. Não senti quase nenhuma dor e tudo passou rapidinho. Foi no meio da madrugada e não consegui acordar meu motorista marido o suficiente para dirigir, chamei um táxi, nasceu dentro do táxi e virou manchete do jornal. Eu estava sozinha, dentro da piscina, não consegui subir a escadinha, marido chamou um guindaste e eu fui içada como uma baleia encalhada. Eu estava no Messenger com minha melhor amiga e escrevi “Amiga, acho que fiz xixi na calça”, então ela respondeu algo engraçado e eu quase pari de tanto rir. Enfim, o ócio obrigatório dos últimos dias tem me deixado com muito tempo livre para imaginar como será. Mas tenho certeza de que será de um jeito que nem imagino. O bonito deste  momento é a surpresa. E ninguém sabe os detalhes justamente para não ter perigo de estragar a festa.

Claro que tem quem tenta. Daí vem a história da “sua barriga está tão baixa, é a qualquer momento, hein?” Ouvi isso tantas vezes, de tantas mulheres diferentes, durante uma semana inteira, que decidi procurar minha médica. Ué, vai que ela é ruim de matemática que nem eu e ainda precisa fazer contas nos dedos? Daí somou tudo errado, escorregou um zero onde não tinha e eu já tô em trabalho de parto e não sei. Como é que eu vou saber que é a hora? Passo o tempo todo à procura de um sinal. Sinto uma dor aguda no canal vaginal. Na primeira vez pensei: “será que começou?” Mas não era nada disso. “É uma dor normal, é a pelve se alargando, é o corpo se preparando para a saída do bebê”. Olho a calcinha em busca de vestígios do famoso “tampão”. Imagino se a bolsa vai romper de uma só vez enquanto estou deitada no meu colchão novinho ou se vai acontecer no meio do corredor do supermercado, de uma forma bem constrangedora. Então descubro que também pode não acontecer: minha mãe não viu tampão nenhum nas gravidezes dela. Nem teve dor, dilatação, bolsa rompida, nada.

Além disso, mesmo que os cálculos da médica estejam certos, a verdade é que gravidez não tem data para nada: nem para começar, nem para terminar.  Não é ciência exata. A geração de uma nova vida é algo que acontece no prazo que cada ser precisa para estar pronto. E se esse dia for hoje? O que é essa pontada nas costas? Essa dor na virilha é trabalho de parto ou estou com gases?

A médica sorri, como sempre e explica que “barriga baixa” é normal. Diz ainda que é muita sorte eu ter esse formato de útero, essa disposição do ventre. Graças a isso, não terei falta de ar e provavelmente não sofrerei de azia. Verdade. Geralmente no último mês as gestantes reclamam muito de falta de ar. Deito de barrigão para cima, sinto o mini-eu chutando minhas costelas, mas ainda assim respiro normalmente. Também não tive azia.

Saio do consultório com um calendário em mãos, montado pela obstetra. Nele tem um dia marcado para a tal DPP (Data Provável do Parto). Ela explica que pode acontecer do bebê estar pronto 10 ou 15 dias antes e já mandar algum sinal. Ou pode vir 10 ou 15 dias depois. É que nem previsão do tempo. Eles não sabem se vai chover ou não então escrevem algo genérico do tipo: “sujeito a pancadas de chuva isoaldas”.

Cada gravidez é de um jeito e o grand finale é sempre um espetáculo único. Observo com certo alívio que a médica usa uma calculadora para fazer as contas.  “Relaxe e aproveite, vai sentir falta da barriga”.

Aliás, essa é outra frase que tenho ouvido muito agora na “reta final’. Todo mundo me avisa que sentirei falta da barriga. Terei o bebê no colo, ficarei radiante com isso, mas vou chorar de vontade de senti-lo dançando dentro de mim de novo. Acredito, pois já tenho saudade dela agora. Passo horas deitada conversando com o bebê, fazendo carinho nos pequenos “montinhos” que aparecem cada hora num lugar da barriga, quando o mini-eu se mexe. E como ele se movimenta! É muito ativo e participativo. Reage à música, às vozes, às minhas mudanças de humor. No banho cantamos juntos e também enquanto estamos no carro.

Os pés e pernas muito inchados me obrigam a ficar deitada a maior parte do tempo. Então aproveito para namorar minha barriga e observá-la atentamente. Digo o tempo todo ao bebê o quanto ele é amado, querido, planejado, esperado, idolatrado-salve-salve. Explico que estamos todos muito ansiosos, mas que ele deve ignorar quando o papai diz: “Vai, bebê, sai logo daí, tô louco pra ver você”. Aviso que ele só deve sair quando estiver prontinho. O bebê dá dois soquinhos como quem responde: “Tudo bem, mamãe, já saquei que papai é meio impaciente e precisamos aproveitar esta oportunidade para ensiná-lo a aprender a esperar o tempo certo das coisas”.

Às vezes o bebê fica impaciente também, parece procurar a saída.  Se vira de um lado para o outro dentro de mim, empurra minha barriga com tanta força que parece que a pele vai rasgar, como naquele filme do alien. Então aviso: “filho, não é pelo umbigo, eu garanto. Não adianta você erguer o umbigo da mamãe desse jeito, como se fosse a tampa de uma caixa.Calma. Continue procurando, um dia você acha a saída. Dica de mãe, amor: o buraco é mais embaixo”.

A ansiedade só piora as coisas na reta final da gravidez. Tem sido a fase mais difícil para mim. Não encontro posição para dormir, sinto muito calor, tenho dificuldade para levantar da cadeira, do sofá, da cama. Me sinto cada vez menos grávida e cada vez mais gorda. Meus pés e minhpesgrandesas pernas já amanhecem inchados. Uso meias e tenho sessões de drenagem linfática, mas esses recursos só atenuam o problema. Há duas semanas eles estão assim: constantemente inchados, não voltam ao “normal” de jeito nenhum.  Depois de meia hora em pé ou sentada, os pés começam a doer e fica difícil andar. O sapato número 36 não serve mais. Agora uso chinelos número 39, emprestados de uma amiga. Os dias são quentes, mas para mim parecem ainda mais. O canal vaginal dói. Algumas vezes estou deitada de um lado e preciso virar o corpo para o outro lado para levantar, mas não consigo sem ajuda, pois a barriga pesa muito. O bebê já tem quase 3 kg!

Engordei quase 20 kg já. Esse parece ser o motivo principal de quase todo o desconforto. O excesso de peso prejudicou a circulação, o intestino, provocou hemorroidas, inchaço nas pernas e nos pés, dificuldade para me locomover. Tenho a sensação de que para o bebê também está cada dia mais difícil. Ele tem menos espaço para se movimentar e “reclama” quando faço alguns movimentos ou fico tempo demais em pé.

Ao mesmo tempo, é tanta alegria, expectativa e felicidade pela chegada do bebê, que todo esse desconforto fica em segundo plano a maior parte do tempo. Olho aflita para meus pés deformados e penso: “é um preço pequeno a pagar para trazer ao mundo meu amor maior”. A família ajuda. Juntos fazemos piadas sobre minhas dificuldades. Se estou no sofá e quero levantar, alguém já grita: “a gravidinha encalhou de novo, alguém socorre lá”. Daí tenho um ataque de riso e a barriga entra num frenesi doido, subindo e descendo, chacoalhando o bebê, que ri junto comigo. É delicioso.

Meu irmão, pai de três, definiu essas agruras dos últimos dias de gravidez de forma nada poética, mas muito sensata. “A natureza é sábia”, ele disse. “Tudo fica difícil, dolorido e insuportável no final justamente para que a mãe queira o parto.  Se fosse gostoso, agradável e confortável, ninguém teria pressa em enfrentar as dores do parto. A mãe diria simplesmente: ‘Ah, tá tão bom assim, deixa o bebê mais um pouquinho aqui dentro, não tem problema’. Então a natureza deixou tudo difícil para a mãe e também para o bebê. Assim os dois trabalham juntos para acabar logo com isso.”

35 comentários 16/11/2009

Por todos os buracos

RemediosGravidaChegaram milhares dezenas de emails, bilhetes, tuitadas, torpedos, scraps e sinais de fumaça com a mesma pergunta que não quer calar: qual é o nome do bendito fitoterápico que desentupiu meu  fiofó (não sabe do que estou falando? Leia aqui). Aviso aos navegantes da web: sou contra a auto-medicação, principalmente na gravidez. Mesmo um composto natural pode ser perigoso. Cada caso é um caso e o que faz bem para um pode fazer mal para o outro. Por isso: não tomem remédio (nem mesmo fitoterápico) sem o conhecimento do obstetra! O nome do medicamento indicado pela minha médica  é PlantaBem: uma caixa com 30 envelopes custa cerca de R$ 50 aqui.  Tomo o conteúdo de um envelope após cada uma das três principais refeições do dia .

Esse é só um dos compromissos medicamentosos da minha rotina. Sempre tive resistência a tomar remédios e não imaginava que justamente na gravidez me tornaria uma espécie de hipocondríaca, ainda que contra minha vontade. Ao longo da gravidez a conta da farmácia só fez aumentar e tomar todos os buracos do meu corpo grávido.

Pelo buraco da boca:

Primeiro veio o ácido fólico. Receitado pela médica no dia em que anunciei que pretendia engravidar. Um comprimidinho uma vez por dia. Ela disse que suspenderia o uso após o primeiro trimestre de gravidez, mas após o sangramento, decidiu mantê-lo até o final da gestação.

Depois veio a cápsula de polivitamínico. É uma pílula grande. Uma vez por dia também.

Pelo buraco da área de lazer:

Depois do sangramento, a médica receitou uma cápsula de hormônio (progesterona) todas as noites, antes de dormir. Não tem aplicador, nem nada. Pego o comprimidinho gelatinoso com a mão, enfio na vagina e empurro com o dedo, o mais fundo possível. Não se iluda, a coisa não é divertida como pode parecer. Depois o corpo absorve o que interessa e passa o resto do dia seguinte jogando fora o que não foi aproveitado (uma gosminha branca, meio leitosa, que parece corrimento, mas na verdade é o revestimento da cápsula gelatinosa). Ou seja: ao contrário do que eu pensava, a gravidez não serviu para eu me livrar dos absorventes.

Pelo buraco do fiofó:

Uma pomada que alivia os problemas e dores causados pelas hemorroidas. A caixa do medicamento vem com bisnaguinhas e aplicadores individuais. O paciente deve introduzir o aplicador no c* e apertar a bisnaguinha até que toda a pomada tenha entrado no fiofó. Agora imagina fazer isso com uma só mão,  se contorcendo de um jeito que não machuque a barrigona e tentando evitar que a pomada meleque tudo à sua volta. Diversão garantida.

Efeito Dominó

De acordo com a bula e a médica, a vitamina e o ácido fólico contribuíram para a prisão de ventre, o que ocasionou hemorroidas e, consequentemente, a necessidade de mais medicamentos (o fitoterápico regulador de intestino e a pomadinha no fiofó).

Se uma coisa leva a outra, nem quero imaginar que tipo de remédio logo terei de enfiar pelo nariz, o único buraco poupado até agora nesta gravidez.

Pois pelos buracos dos ouvidos já entrou cada droga: conselhos inúteis, críticas, histórias pavorosas de partos dolorosos e de bebês que tiveram cólicas todas as madrugas dos primeiros três meses de vida. Mas isso foi antes de eu descobrir o filtro gestacional.

22 comentários 07/11/2009

Sem saída (o caso do fiofó entupido)

cadeadoSabe aqueles comerciais de TV que mostram iogurtes, suplementos naturais, benzedeiras e talismãs que prometem “um intestino que funciona como um relógio”? Sempre me causaram um misto de angústia, alegria e descrençaAngústia pela vergonha alheia que sentia ao ver atores, diretores e outros profissionais envolvidos na cômica e difícil tarefa de vender um produto que garante ao consumidor a certeza de cagar com hora marcada.

Alegria pelas risadas que algumas propagandas conseguiam provocar em mim – e em outros telespectadores, bem sei – ao apresentar o assunto. Como o tema é, digamos, assim…meio “preso”, fazem de tudo para tratá-lo com humor e a coisa acaba ficando meio ridícula.

Descrença na eficácia do produto e na existência de gente tão entupida e desesperada quanto aqueles atores mostrados nas propagandas. Não dava pra acreditar que alguém realmente tivesse tanta dificuldade para sentar lá no vaso sanitário, abrir o desktop, esvaziar a lixeira e clicar na descarga. A não ser que fosse algum sujeito com uma grave doença no intestino, o que não justificaria tomar litros de iogurte, mas sim procurar um médico.

Paguei minha língua. E paguei com o c*. Se eu acreditasse em castigo divino ou na lenda de que algumas pessoas tem poder de rogar pragas nas outras, explicaria de forma esotérica o meu fiofó entupido a partir da 30.a semana de gestação.  Não que antes da gravidez eu fosse o tal “reloginho” da propaganda, mas “cagar ou não cagar” nunca foi “eis a questão” na minha vida. Era tão normal quanto tomar água ou puxar o freio de mão ao estacionar o carro. Coisa mecânica do dia a dia, que eu fazia sem prestar atenção. Bem diz o ditado que a gente só dá valor ao que tem depois que perde. E o poder de dar uma boa cagada antes de ir dormir é algo que a gente precisa valorizar, gente amiga!

Desconhecia a importância do assunto. Se ri dos entupidos, se zoei as propagandas de laxantes e iogurtes milagrosos, foi por pura ignorância. Só agora, aos 35 anos de experiência cagona (que começou com mecônios tímidos na década de 70, nas fraldinhas de pano que mamãe lavava) me dou conta de como o assunto “intestino” é constrangedor para a maioria das pessoas, inclusive para mim. Ao lavar o fiofó, senti com as pontas dos dedos que havia alguns carocinhos naquela área. Imagina o susto.

Passei um dia angustiada com aquilo, queria ligar pra médica mas não sabia por onde começar a explicação. Então procurei a ajuda da pessoa que melhor me conhece: por dentro e por fora. Por cima e por baixo. Na frente e atrás. Da perseguida ao fiofó. Aliás, ela até já havia passado talquinho no meu bumbum, antes da prática ser condenada, lá nos tempos dos alfinetes gigantes:

“Tô com bolinhas no c*, falei pra minha mãe.

Alívio quando mamãe sabe-tudo explicou que era normal. Pânico quando ela engatou no papel de enciclopédia materna e deu nome pra´quele fenômeno: “São hemorróidas, algumas mulheres tem isso na gravidez. Eu mesma tive, mas sumiram depois do parto”. Mais pânico quando ela disse que em alguns casos a coisa complica e uma prima havia até passado por uma cirurgia pra resolver o problema.  Imaginei num futuro não muito distante meu destino de humilhação:  uma sala de cirurgia, minha bunda pelada, arreganhada e erguida e um bando de médicos costurando meu fiofó. Pânico master blaster.

gravidabanheiroMas nem assim consegui ligar pra médica. Mamãe aconselhou e eu aumentei a ingestão de fibras e água. Comprei litros do tal iogurte que prometia desentupir minha saída. Nada adiantou. Uma semana depois tive consulta com a obstetra e fiquei surpresa com a minha dificuldade em falar do assunto. Aquela mulher já havia me visto pelada, já havia enfiado até a mão na minha vagina, daqui a algum tempo vai trazer meu filho ao mundo… e eu ali com vergonha de falar que tinha uns carocinhos no fiofó. Parecia que a garganta ( não o c*) estava entupida. Tá certo que o fiofó é feinho demais, tadinho. E faz um serviço que não cheira nada bem. Mas o assunto era importante, eu sentia dor e aquela situação estava atrapalhando minha vida. Mesmo assim a reclamação não saía. Dei algumas voltas até conseguir chegar ao assunto e falei baixinho, olhando para o lado:

– Acho que estou com uns…umas…é….alguma coisa…lá…(comicamente apontei para trás com o dedão) sabe… minha mãe falou que é normal, que ela teve, que sarou depois, que chamam de…é…acho que é…são …ahn…hemorróidas.

Achei que a notícia teria um impacto tremendo sobre a médica. Fiquei esperando uma mexida incomodada na cadeira ou uma pigarreada para disfarçar o constrangimento.

Sangra?

Lembra o pânico mega blaster? Foi promovido a chefe e demitiu todos os meus pudores:

– Essa porcaria pode sangrar, doutora????

Depois de um verdadeiro tratado sobre o que são hemorróidas, o tratamento, as possíveis complicações e a necessidade de manter o fiofó em ordem para a hora do parto normal, a médica prescreveu um medicamento fitoterápico para auxiliar no funcionamento do intestino e uma pomadinha que deve ser aplicada no fiofó toda noite, antes de dormir. Tudo de uso permitido na gravidez.

Meio sem graça, entreguei a receita médica ao marido. Um gentleman. Não fez perguntas. Mas deixou claro que estava por dentro do problema na saída do esgoto: junto com os remédios, trouxe também ameixas, aveia e mamão para a casa.

O fitoterápico fez efeito quase imediato e eu voltei a sorrir e a cantar. DesentupidaPassei a ver o mundo com outros olhos se é que você me entende.

Não dou mais risada dos comerciais de tv. Fico emocionada com eles, num sentimento de solidariedade aos que enfrentam congestionamentos gigantescos e horas eternas e suadas no banheiro. E um viva às ameixas! Hip hip hurra!!

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Saiba mais sobre o assunto no site do Dr. Drauzio Varella

28 comentários 01/11/2009

Que é que ocê foi fazê no mato, Maria Chiquinha?

vacaAra, cumadis e cumpadis,  estou de volta ao mundo civilizado depois de um fim de semana no meio do mato, longe de tv, internet, micro-ondas (o único que fez falta), telefone…Na sexta-feira meu marido chegou em casa com a novidade: havia conseguido o sábado e a segunda-feira de folga e queria ir para o sítio de um primo dele que fica lá onde a gente vira a primeira às isquerda depois do fim do mundo. E ainda tem de atravessar uma ponte.

Nas primeiras horas no sítio não passei muito bem, fiquei sentindo um aperto no peito.  Quase cheguei à conclusão de que estava sofrendo overdose de oxigênio, quando marido disse: “respira, amor, o carro já está parado”. Aí me dei conta que tinha prendido a respiração no início da viagem, com medo da estrada. Bem…não exatamente da estrada, que era até bem pavimentadinha e muito bem cercada de um monte de árvores e outras coisas verdes lindas de se ver, graças à chuvarada dos últimos dias. Tive mesmo foi pânico das carretas imensas que vinham na direção contrária e dos malucos em velocidade absurda que insistiam em ultrapassar nos locais proibidos. Como fomos obrigados a parar de 40 em 40 minutos para eu marcar território fazer xixi, ultrapassamos os mesmos caminhões várias vezes. O número de pit stops foi tão grande que estou pensando até em montar um novo blog, com a avaliação minuciosa do banheiro de cada posto daquela rodovia e também das principais moitas-latrinas (afinal, nem sempre tem um banheiro por perto quando a grávida precisa de um..quem não tem banheiro, caga no caça com matinho mesmo) do caminho.

Foram dias maravilhosos, com os pés descalços, muito sol, passarinhos cantando, água direto da mina e muito beijo na boca. Tá certo que foi um fim de semana romântico a três, mas tenho certeza de que esse chamego todo entre o papai e a mamãe fizeram muito bem para o bebê. Na manhã de domingo tomamos um típico café da manhã do sítio com leite de caixinha e queijo Danúbio. É que grávida não deve consumir leite e queijo que não sejam pasteurizados e marido foi solidário, também recusou os deliciosos mimos in natura quando o caseiro do sítio apareceu com eles para nos recepcionar.  O matuto fez cara de magoado e saiu suspirando um “essa gente da cidade grande não sabe o que é bom”. Pior que sabemos, sim, mas também sabemos que o que é bom pra gente pode ser ruim pro bebê.

Depois do café, sentamos na varanda para assistir ao espetáculo de mais um dia surgindo. Coisa mais linda aquele céu todo colorido com tons de dourado, alarajando, azul e rosa.

Cada risco parece feito com um pincel gigante, disse meu poeta-marido.

Ao que remedei com minha lógica tecnológica moderna:

– Ou com o Photoshop CS3.

Os pássaros no céu, nas árvores e nas cercas formavam um coral lindo. Coloquei as mãos na barriga e pensei o quanto queria que meu bebê pudesse assistir aquele espetáculo.  Ele certamente ficaria encantado com toda aquela beleza, luz e sons. Estava assim, imersa em amor e leveza, quando algumas vaquinhas se aproximaram devagar, puxando a relva mais suculenta perto da cerca. O silêncio era tanto que podíamos ouvir o ruminar dos animais.

– Essa aí deve ter um bezerrão que mama muito – disse marido, apontando uma vaca malhadinha.

– Como é que você sabe? – perguntei, impressionada esse lado Globo Rural (que eu desconhecia) do meu amado

– Olha só o tamanho dessas tetas, amor…não te lembra ninguém?

Eu não sabia se ria ou mugia para ele. Então fiz os dois. Primeiro gargalhei. Depois soltei um mugido digno de mamífera premiada em feira agropecuária. As vaquinhas pararam de comer e me olharam ressabiadas, de certo olhando minha peitaria e imaginando que eu faria uma grande concorrência no mercado de leite e queijo da região.

18 comentários 01/09/2009

Doce exame amargo

A balança do consultório da minha obstetra é uma dedo-duro. Na semana emgravidabalanca4 que completei 22 semanas de gestação, a maquininha linguaruda me denunciou:  engordei 3 quilos em um mês.  Levei um susto.  A médica tratou de me assustar mais: “o que está acontecendo com você, ganho de peso rapidamente, muita sede e pernas inchadas, podem ser sintomas de diabetes gestacional“.

Recomendou que eu fizesse com urgência um exame de sangue chamado Curva Glicêmica. Já tinha ouvido falar que diabetes gestacional pode colocar a vida do bebê em risco e prejudicar a hora do parto. Comecei a chorar. “A culpa é toda minha, como doce demais, massas demais, não faço caminhadas como deveria…” Didática e paciente como sempre, a médica explicou que não era bem assim, que poderia ser genético ou simplesmente uma reação do meu organismo às mudanças hormonais. Ela falou que a grande quantidade de hormônios produzidos pela placenta gera resistência à ação da insulina no organismo da gestante. Em algumas grávidas, essa resistência é muito alta e aí ocorre o diabetes gestacional, que costuma aparecer por volta da vigésima quarta semana de gravidez.  Por isso mesmo quando não há sintomas, o médico pode pedir um exame para avaliar as taxas de glicose no oganismo da gestante.
O diabetes gestacional pode ocasionar várias complicações para o bebê, como peso elevado ao nascer, e para a mãe, que pode sofrer com pressão alta, aumento do risco de cesárea, eclampsia e desenvolvimento de diabetes após o parto. Quanto antes for detectado o problema, maiores as chances de não haver riscos para o bebê, nem para a mamãe. Se constatada a doença, a primeira providência é modificar a dieta alimentar da mãe.

Fui para a casa chateada. Não conseguia pensar em outra coisa. Estava com fome, mas sentia medo de comer alguma coisa que não fizesse bem para o bebê. É, na minha cabeça já estava tudo resolvido: eu tinha diabetes, teria de controlar a alimentação, meu mundo grávido e docinho havia caído.

Como sempre, a expectativa pelo exame virou um drama Almodovariano na minha cabeça. Sofrer por antecipação é praticamente um hobby para mim. Não que eu goste de ser assim, mas é uma daquelas características natas com as quais a gente é obrigada a conviver a vida toda, por que não há experiência de vida, terapia, nem Floral de Bach que resolva.

Todo mundo dizia que eu não tinha nada. Meu marido, minha mãe…eram unânimes: você não tem nada, você vai ver, esse exame não vai dar em nada. A certeza deles me deixava mais triste ainda. “Ninguém liga pra mim, estou doente e eles não se importam” (ai, TV Globo, olha o talento dramático que vocês estão perdendo aqui).

Eu falava do meu excesso de peso e todos diziam que não parecia que eu havia engordado. “Você está ótima! Não engordou muito, não! “ – ouvia dos parentes, amigos, vizinhos e até desconhecidos na fila do supermercado.

Nos três dias que antecederam o exame, passei a me alimentar melhor ainda do que antes. Cortei o excesso de carboidrato, eliminei totalmente os doces da dieta, comi mais frutas, grãos e legumes. O consumo de arroz integral – que era esporádico – passou a ser obrigatório. Fui uma grávida modelo naquele período. Sou fã de doces e ficar sem minha geleia preferida no café da manhã ou a fatia de bolo do lanche da tarde me deixou meio chateada. Mas eu só pensava na saúde do meu filho.

Grávida mascarada

michaeljacksonmascaraMeu marido nem queria que eu fosse fazer o exame. Ele estava com medo mesmo era de eu pegar alguma “doença de verdade” (era o que ele dizia) na sala de espera do laboratório de análises clínicas, um lugar que vive apinhado de gente com suspeita de todo tipo de moléstia (inclusive a famigerada Gripe A Suína).  A obstetra também alertou sobre esse perigo e orientou para que eu usasse máscara. Me senti meio Michael Jackson, pagando um mico danado com aquela máscara, mas resolvi não arriscar. Além disso, carreguei comigo um tubo de álcool gel para o laboratório na hora do exame.

Um doce exame

Jejum de oito horas para uma grávida esfomeada como eu já é um sacrifício. BebidinhadocMas o que veio depois foi ainda pior. Com uma agulha bem fininha, a enfermeira tirou um tubinho de sangue do meu braço direito, fez umas anotações e pediu que eu tomasse dois copos bem cheios de uma substância que era açúcar puro. Parecia um refresco desses em em pó, de saquinho, que geralmente é preparado na proporção de UM saquinho para cada DOIS litros de água. No exame a proporção deve ser algo como DEZ saquinhos para cada 200 ml de água. Pensa numa coisa doce. Agora pensa nessa coisa doce mergulhada num pacote de açúcar refinado. Tá quase perto…

– Não pode vomitar, hein? – disse a enfermeira.

Ao ouvir isso, quase não consegui tomar o segundo copinho, fiquei imaginando quantas grávidas haviam vomitado ali. Devia ser normal botar aquela calda açúcarada pra fora. Não vomitei até agora esta gravidez inteira, não é agora que vão me derrubar, né? Respirei fundo, fechei os olhos e virei de uma vez o segundo copinho, sentindo o açúcar bater no estômago vazio. A sensação foi de que minha boca inteirinha estava melada de tanto doce. Senti vontade de vomitar, ergui a cabeça e pensei no bebê. Pedi água, mas a enfermeira deu apenas um golinho, servido num copinho daqueles pequenos (de café) e avisou que eu não poderia beber água até o final do exame.

Olhei para ela atônita: – Tá brincando, né?

E quanto tempo mais ou menos vai durar este exame? – perguntou meu marido.

– Mais três horas. – respondeu a enfermeira e, em seguida, espetou meu outro braço para coletar mais uma amostra de sangue.

A partir daí, de tempos em tempos entrava alguém na sala para me espetar de novo. Além da sede, eu sentia muita vontade de fazer xixi. Quando a segunda enfermeira apareceu, perguntei se podia ir ao banheiro e ela disse que sim. Alívio! Cada ida ao banheiro era acompanhada por um ritual digno de quem sofre de TOC:  tudo para não encostar na maçaneta da porta, na torneira da pia, na tampa do vaso sanitário. E na volta para a sala de exame eu esfregava as mãos e os pulsos com álcool gel, apavorada. Tudo sem tirar a máscara.  Gravidez em tempos de gripe é uma paranóia.

Meu bebê, que acha que meu útero é trio elétrico da Bahia, começou a pular mais ainda (onde é que esse guri arranjou uma cama elástica???).  A enfermeira falou que as gestantes sempre relatavam o aumento da movimentação do bebê depois que ingeriam a substância super doce. E ainda tem gente que fala que o que a mãe come não influencia, nem afeta o bebê. O jejum e o açúcar derrubaram um pouco minha pressão, por isso fiquei deitada até o final do exame, observando a festa que acontecia dentro da minha barriga. Meu marido ficou sentadinho ao meu lado, com a mão sobre o meu ventre,  encantado com a coreografia saltitante do bebê, enquanto eu me controlava para não pular sobre o bebedouro no corredor. Sede…sede…sede.

Três novas espetadas nos braços depois e finalmente fui liberada para ir pra casa. Bebi quase um litro de água de uma vez. Depois, só pensava em comer alimentos salgados. O exame tirou minha vontade de doces durante uns dois dias. Via um doce e sentia um pouco de ânsia ao lembrar da “limonada” do exame. Fiquei com um pique danado o resto da manhã, plugada na tomada. Mas na hora do almoço alguém puxou o fio e eu desconectei. Uma moleza profunda tomou conta de mim. Parecia que estava dopada. Passei a tarde deitada, sonolenta e fadigada, com uma sede que não acabava nunca.

– Saia açúcar. Saia deste corpo que não te pertence!

Doce resultado

Passei o dia inteiro ansiosa para saber o resultado do exame, que foi VivaPassamosNoExamepublicado no site do laboratório naquela mesma noite. Aos meus olhos leigos, aqueles números pareciam muito bons. Mas não sou médica para interpretar exames de sangue e não sosseguei enquanto a obstetra não viu o resultado no dia seguinte e bateu o martelo: “está tudo bem”. Passei no exame com louvor. Meu organismo está metabolizando a glicose direitinho, sem faltar nenhum dia, inclusive feriados.

Fiquei tão feliz e aliviada. Queria abraçar alguém e nessa hora só me ocorria a imagem de uma pessoa: a dona da sorveteria do meu bairro. Meu filho está bem, eu estou bem e Kibon que eu posso comer doce sem restrições.

Enquanto meu marido, minha mãe e até o papagaio do vizinho diziam em coro: “viu, a gente falou que não era nada, que estava tudo bem”, eu só pensava em comemorar o resultado com um belo pote de sorvete, acompanhado de uma generosa fatia de bolo de chocolate com calda quente.

Leia mais sobre Diabetes Gestacional

32 comentários 23/08/2009

Eu estava falando sobre o conhaque…

gravidaMausHabitosA garganta arde e o nariz vive entupido. Há mais de uma semana tenho dificuldade para respirar, dormir, viver. A gripe me pegou de jeito. A tosse chata e constante acorda a casa toda de madrugada. Falo que faz parte do treinamento para quando o bebê chegar e começar a manter todos bem despertos no meio da noite. A obstetra não liberou nenhum medicamento. Sugeriu apenas que eu evite friagem e pingue água morna com sal nas narinas. Gargarejos também são uma opção.  Sou contra o uso de medicamentos de qualquer tipo (mesmo os “liberados”) durante a gravidez. Por isso estou enfrentando a gripe apenas com os paliativos tradicionais do “tempo da vovó”. Mel misturado com limão para aliviar a garganta é uma das fórmulas caseiras que minha mãe indicou. Um lenço umedecido com água morna em volta da garganta na hora de dormir também tem ajudado.

Meu marido fica desesperado ao me ouvir tossir pela quinta vez em 20 minutos.  “A tal Gripe Suína está por todo lado, li que as grávidas fazem parte do grupo de risco”, diz ele, com tom de preocupação na voz. Considero demoradamente o tamanhho dos meus peitos e o efeito dos hormônios sobre o meu comportamento. Respondo: “Amor, eu tô mais pra Vaca Louca…”

Então a sogra telefona para saber como estou. Faço breve relato do meu nariz fica entupido que me atrapalha na hora de dormir. Reclamo também da garganta e da tosse. Imediatamente recebo em troca uma dica caseira para curar a garganta. É infalível, garante a sogra:

– Misture mel, limão e uma colher de sopa de conhaque. Tome pequenos goles durante o dia.

Já é de conhecimento de toda a família que sou radicalmente contra o consumo de bebidas alcoólicas durante a gestação e amamentação. Por isso encaro a dica como mais uma provocação de sogra e respondo:

– Tá louca? Eu estou grávida! Não posso usar isso, não!

Um suspiro e duas pigarreadas depois, minha sogra afirma:

Ai, amor, pode sim. Mel só faz mal pra bebês, não para gestantes. Pode usar  mel sem medo!

30 comentários 26/07/2009

O peso de uma gravidez

Não é à toa que dizem que gravidez é o MAIOR momento da vida de uma mulher. Eu nunca estive tão GRANDE mesmo. Principalmente coxas, bunda e peito.  Não me peso em qualquer balança, só na digital da clínica médica na qual faço o pré-natal. Não subia na balança havia mais de um mês, desde a última consulta. Até lá estava tudo bem, o ganho de peso estava correto, dentro do “normal”, havia dito minha médica.

Teria de esperar a próxima consulta para verificar meu peso de novo, mas gravidabalanca5como estava passando perto da clínica…ai, mentira, mentira...Desviei completamente do meu caminho e dirigi uns dois quilômetros a mais do que deveria, só pra ir lá pesar, por que estava me sentindo super-mega-maxi-hiper culpada por ter comido um monte de “tranqueiras” no fim de semana. Coisas que eu não gostava antes de engravidar. Com exceção de doces, que são minha perdição, sempre tive uma alimentação digna de Oscar da Nutrição. O cardápio em casa é feito à base de pão e arroz integral, legumes, verduras, frutas e grãos. Não como carne vermelha e raramente consumo consumia frituras.

Hábitos saudáveis adquiridos na infância, quando minha mãe passou por uma fase meio riponga-natureba e entrou numa onda tofu-gergelim maravilhosa. O resto da família não aderiu e até protestou várias vezes com arghs! e blerghs! Eu tinha apenas 5 anos e já sabia o que era bom. Ou simplesmente queria imitar minha ídola-mãe. Não sei. Mas aquela fase serviu para que eu realmente aprendesse a gostar desse tipo de comida. Hoje não troco meu broto de feijão com brócolis por nenhuma coxinha de frango. De verdade.trashfood

Quer dizer. Não trocava. Por que desde que engravidei, as coxinhas de frango gordurentas passaram a ter aparência muito suculenta na vitrine da padaria. Claro que eu coloco a culpa no bebê, falo que ele puxou o pai, que adora uma fast-trash- food. Nunca fui fã de refrigerantes, frituras, salgadinhos, lanches, pão francês, nada disso. Mas depois que engravidei, tenho muita vontade de tudo isso. Controlo o máximo que posso. Tento trocar os doces por frutas, por exemplo. Antes de colocar algo na boca, sempre me pergunto: “Isso é importante para o bebê? O bebê precisa disso?Fará bem para ele(a)?” . Mas tem dia que sacaneio e respondo: “Cla-la-ro que o bebê precisa dessas empadinhas, afinal, são de frango, têm proteína”. Ué, quem pergunta o que não deve, ouve o que não quer.

Para piorar, minha paixão por doces parece cada vez mais profunda. Todos esses maus hábitos subiram comigo na balança esta semana. Descobri que engordei 2,5 kg em apenas 28 dias. Não sei se isso é bom ou ruim. Não me parece muito certo. Mas só vou descobrir na consulta da semana que vem, quando terei de me pesar de novo e encarar o veredicto médico: culpada ou simplesmente grávida?

Não estou preocupada com o meu corpo, mas sim com a saúde do bebê e da gestação. Tenho medo de engordar muito e enfrentar problemas no finalzinho da gravidez. Também tenho medo de não me alimentar corretamente e prejudicar o bebê.  Mas sei que a médica vai tirar todas as minhas dúvidas e me ajudar a fazer o que for melhor para o mini-eu. De qualquer forma, voltei a fazer caminhada (num ritmo bem mais lento do que fazia antes de engravidar) e vou começar a hidroginástica. (E estou tentando cortar as “tranqueiras” para sempre e incluir mais peixe na alimentação – veja o post abaixo com uma receita deliciosa de salmão)

Ganho “normal” aproximado de peso durante a gestação

Bebê —————————> 3.500 g

Placenta ———————-> 700 g

Líquido amniótico ————> 900 g

Crescimento uterino ———-> 900 g

Tecido mamário materno —> 900 g (o meu passou de 2kg, certeza hahahaha)

Volume sanguíneo materno——> 1.800g

Líquidos nos tecidos maternos –> 1.800g

Gordura materna —————> 3.200g

Total (em média) —————-> 13.700g ou um ganho

ponderal de aproximadamente 13,5 kg

(Fonte: “O Que Esperar Quando Você Está Esperando?” – Editora Record)

13 comentários 03/07/2009

Filho de peixe, peixinho é. E filho de quem come peixe…é o quê?

Salmão à moda Letícia, arroz integral e saladinha básica

Salmão à moda Letícia, arroz integral e saladinha básica

Acordei com vontade de comer salmão. Claro que não no café da manhã, né? Mas confesso que comi meu pãozinho integral já planejando o almoço. Por que grávida-faminta-esfomeada é assim mesmo. Almoça pensando na sobremesa, come a sobremesa de olho no lanche da tarde e quando toma lanche já está planejando a janta. Nos meus planos lights de grávida-com-medo-da-balança-digital-da-clínica-obstétrica constava apenas um filezinho modesto (até por que não posso ficar gastando com esses luxos, tenho de economizar pra comprar fraldas) bem grelhadinho, temperado com sal e limão.  Mas daí eu fiz a besteira de comentar com a Letícia-Mamie-Bella sobre as minhas intenções para o almoço e ela começou imediatamente a exibir todo seu conhecimento gestacional-gastronômico, que incluía uma (nada light) receita de salmão com molho de tomate e requeijão (a receita tá neste post mesmo, um tantinho mais lá pra baixo).

salmao4

Gorda Grávida que sou, fiquei com desejo maior ainda e decidi tentar prepará-lo. Saí a pé (pra já gastar as calorias que seriam ingeridas no almoço) e comprei os ingredientes fresquinhos. Joguei tudo no caldeirão, misturei, benzi e falei umas palavrinhas mágicas. Deu nisso aí que você estão vendo nas fotos. Primeiro eu comi com os olhos, por que ficou lindo. Depois eu comi com a boca. Depois eu comi com o meu olhor maior que a minha barriga (e olha que tem de ser um olhãããão  por que a barriga tá cada dia mais gigantesca) e aí eu fiquei arrotando salmão a tarde toda, feliz da vida, realizada. Não me arrependi de ter trocado o grelhadinho-básico-sem-graça pelo todo-poderoso-salmão-da-Letícia. Só me arrependi de ter preparado o salmão quando finalmente fui lavar a louça do almoço: tudo fedia a peixe. (Vai, grávida mal-agredecida, já tá de barriga cheia, né? Então cospe no prato que comeu, na panela que preparou, na travessa que assou…cospe!)


salmao3 Receita

Ingredientes:

(Porção para três pessoas…mas se uma delas for grávida-faminta, a porção só dá pra duas pessoas)

– Um filé de salmão (cerca de meio quilo)

– Cinco tomates maduros

– Seis ou sete batatas pequenas

– Requeijão cremoso

-Para temperar: alho, cebola, dois limões, alecrim, mostarda, sal, manjericão, cominho, pimenta e o que mais você quiser jogar lá dentro

Preparo

– Coloque o filé de salmão numa vasilha, esprema dois limões sobre ele, acrescente sal, alecrim, um pouquinho de mostarda, cominho, pimenta, alho e cebola picadinhos. Tampe e deixe “curtir” durante uns 20 minutos.

Enquanto isso, aproveite para fazer o molho de tomate. (A Letícia falou pra eu usar uma lata de molho pronto, mas prefiro fazer o molho na hora).  Cada um faz o molho do jeito que quer. O meu é assim: refogo alho e cebola picadinhos, acrescento os tomates picados em pedaços bem pequenos (com semente, casca e tudo – tem gente que tira, mas eu tenho preguiça gosto assim). Acrescento temperinhos: manjericão, manjerona, pimenta, sal, etc. Se quiser, pode colocar pimentão (rico em vitamina C) ou azeitonas. Fica bom também. Misturo de vez em quando. Deixo cozinhar na panela tampada, em fogo baixo, até ficar no ponto que eu gosto (que é “molhadinho mas ainda com pedacinhos de tomate e cebola – adoooorooo).

Espalhe uma generosa camada de requeijão por cima do filé e depois coloque o molho de tomate sobre o requeijão. Leve para assar em forno médio. O tempo vai do gosto de cada um. Gosto de tudo muuuito bem passado e o forno aqui é windows 95, então demorou uns 40 minutos pra ficar do jeito que eu gosto. Antes de servir, reguei com um pouco de azeite, pra dar um “toque” a mais de sabor.

Cozinhei as batatinhas no micro-ondas, só com um pouquinho de sal. Dez minutos antes de tirar o peixe do forno coloquei as batatas junto com o salmão, só para dourar um pouquinho (mas se você preferir, pode colocar as batatas junto com o peixe, que dá certo também).

Dicas

– Depois de lavados, os tomates foram mergulhados em água com hidrosteril (cloreto de sódio + permanganato de potássio) durante 20 minutos.Em seguida enxaguei muito bem com água corrente e só então preparei o molho (faço isso com todos os legumes e verduras, mesmo que vá descascá-los ou levá-los ao fogo). A higienização também pode ser feita com água sanitária ou vinagre.

requeijaoCremosoLight– Em vez de requeijão, usei o “Queijo Cremoso” Danúbio. Ele vem num copo de vidro igual ao do requeijão, mas é muito mais consistente e saboroso. Parece Catupiry. Acostumei com ele e não acho mais graça comer requeijão “normal” (por que é muito mole). Aêê, turma da Danúbio, manda um cachê aí que fiz a maior propaganda gratuita não obrigatória agora.

– É super importante consumir peixe (principalmente salmão, atum e sardinha) durante a gravidez e a amamentação. A nutricionista me explicou que esses peixes contém ômega 3, bom para o bebê e para a mamãe. Achei esta reportagem da Pais & Filhos sobre o assunto. Vale a pena ler.

– Tomate é rico em ácido fólico, excelente para  a gestante. Por outro lado, pesquisas já tumatimostraram que, ao lado do morango, é um dos produtos com maiores índices de pesticidas. Tirar a casca ajuda, mas não resolve. O ideal é consumir o tomate orgânico (mas nem sempre tem pra vender perto de casa e geralmente é muito mais caro). Difícil, né? Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.

– Requeijão light é sempre a melhor escolha. Assim a gestante consome cálcio, mas não ingere gordura.

– Salmão é um peixe rico em gordura, então não exagere cogravidacansadamo eu fiz, ou vai ficar com sensação de estômago “pesado”, arrotando salmão a tarde toda.

–  Seja mais esperta que eu. Tente negociar para alguém lavar a louça depois, no melhor esquema seulavunumcuzinho, sicuzinhonumlavo.

– Agora chega que já tá na hora do jantar.

5 comentários 02/07/2009

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