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Sapatão de cristal

Observo com aflição e pesar aqueles que outrora foram chamados de pés e agora não passam de dois montes deformados lá embaixo, sustentando os quase 20 quilos a mais que ganhei na gestação.  Quando acordo eles já estão assim. Verdadeiras aberrações da anatomia grávida. Se está calor (e está sempre calor nesta Terra avacalhada pelo bicho-homem) ficam ainda em pior estado. Os tornozelos se fundiram à massa inchada dos pés e desapareceram sem deixar vestígios.  Não há notícias deles há quase um mês. Foram abduzidos pelo inchaço.

Apontados com horror e entre gritos de espanto pelas pessoas na rua, nas filas dos supermercados, nas festas da família e na sala de espera do consultório médico, meus pés bem que gostariam de se esconder, mas não há local fechado no qual possam se abrigar. Eles são obrigados a se exibir o tempo todo em um par de sandálias velhas e desbotadas, do estilo rasteirinhas, número 39, herdadas de uma amiga que sofreu do mesmo mal na gravidez (e sobreviveu). Assustados, meus pobres pés percebem que no fim do dia até as famigeradas e enormes rasteiras ameaçam ficar pequenas. É nessa hora que as tirinhas finas do calçado começam a entrar na carne gorda do tornozelo e no dorso elevado e lá deixam marcas profundas que denunciam ainda mais a deformidade. Nesse momento só resta aos meus intrépidos amigos arremessar as sandálias o mais longe possível e seguir a caminhada solitários, sem calçado, sem sola, sem luxo e sem glamour.

E no meio desse que deve ser o pesadelo de todo podólatra, meus pés, meus queridos pés que me aguentam o dia inteiroooo sonham com seus amados companheiros  sapatos número 36 que, por sua vez, aguardam ansiosos, trancafiados em suas caixinhas no closet pelo dia em que poderão novamente desfilar seus saltos, tiras e vernizes. Em vez disso, meus envergonhados pés vestem meias elásticas indicadas para pessoas que têm varizes. As meias são feias, quentes e difíceis de colocar, mas garantem algumas horas de conforto, mesmo que incapazes de cumprir sua missão de evitar o inchaço.

Ah, amigos pés. Tenho pena de vê-los assim: tão inchados e envergonhados de sua situação. Gostaria de afagá-los, massageá-los ou simplesmente espalhar sobre eles um pouco de creme hidratante. Mas há tempos mãos e pés já não se alcançam. Impedidos de se encontrar pessoalmente, apenas se cumprimentam de longe. Numa tentativa de diminuir a sensação de desprezo e abandono que tomou conta de meus companheiros pés, marco uma hora na renomada  pedicure do bairro. Mando amolar meu único melhor alicate de cutículas. Compro um creme especial de esfoliação. Na hora agendada, chegamos ao salão: meus deformados amigos e eu. É a primeira hora da manhã, mas meus amigos franksteins já provocam olhares espantados e comentários maldosos:

– Menina, como seus pés estão inchados! – (Não diga, eu nem tinha notado)

– Nossa, como é que você aguenta? (Eu não aguento, os pés é que me aguentam)

– Fica de olho na pressão: pés inchados assim sempre vêm acompanhados de pressão alta e significam problema grave. (Minha pressão é sempre baixa, o que isso significa, então, doutora-sabe-tudo?)

– Se já está assim a esta hora, imagina no fim do dia. (Não preciso imaginar, estou com meus pés o tempo todo e vejo o que acontece)

– Você sabe que os pés aumentam um número depois da gravidez? (Se é assim, minha mãe – que teve 4 filhos – calçava 30 quando engravidou a primeira vez?? Isso sim seria aberração)


A pedicure bem que tenta, mas não consegue fazer muito pelos meus inchados amiguinhos. Cada aproximação de um palito ou alicate gera um grito de dor e agonia. As unhas estão afundadas e quase desapareceram nas carnes dos dedos. É impossível fazer o trabalho sem arrancar um pedaço da massa gorda e  deformada. Um filete de sangue escorre pelo cantinho do dedão. Vencida pelo cansaço inchaço, desisto de tentar melhorar a aparência dos meus pães pés, volto para a casa e dou a eles algumas horas de descanso no alto de uma confortável almofada. Os gorduchos amiguinhos repousam agradecidos. Parecem confiantes de que voltarão – um dia –  a ser elegantemente conduzidos em belos scarpins, quando me ouvem dizer com voz terna e quase infantil:

Bebê amado: por você tudo isso vale a pena. E eu faria de novo, quantas vezes fosse preciso. Falta pouco agora para você sair daí.

Ouço quando tendões, ligamentos e músculos suspiram num indisfarçável alívio. Meus pés parecem inflar de tanta alegria ao ouvir a notícia: ah, falta pouco! A única coisa de que vão sentir falta é a massagem e os beijinhos que ganham de vez em quando do meu marido.  Coisa de príncipe, né? Mesmo que seja pra agradar uma princesa que não conseguiria, mesmo se quisesse, usar um sapatinho de cristal. Nem se fosse número 39. Afinal estes pés agora têm dorso número 42 ou 43.

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33 comentários 22/11/2009

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